sábado, 2 de abril de 2011

Réponse oa prince des marées et l'aube boréale




Li sua carta, na verdade não consegui dormir, já que não durmo, apenas mergulho rápido no mundo n’onde maior parte do tempo já vivo, estou falando do mundo dos mortos, dos vivos meus irmãos, nossos irmãos, das fadas, das marés que nos alcançam, das auroras boreais que comunicam comigo suas viradas de cores, suas nostalgias, seus processos, seus passos...
Seus passos naquela noite foram acompanhados por mim e vi a cada letra subscrita na hora do assomo possesso de sua palavra descuidada, nascida pelo impulso da dor e da necessidade de superação, como um sedento que procura água, como um dolente que procura notícias de um filho, de um amante, de um irmão, de uma metade sua ameaçada e perdida nos meios das gentes e mundos, de um só mundo. Senti cada pancada, entendi seguramente cada minuto de repressão e de ameaça, cada estocada covardemente dada na tua cabeça, nas tuas idéias, nos teus medos e revoltas, nos teus pensamentos, nas tuas memórias e nos teus resguardos, tão bem plantados quem sabe pela segurança admoestada da figura amada e masculina do pai. E os pivetes tinham pai? Eu me perguntaria agora, mas não me interessaria sinceramente à resposta, porque mais eu gostaria de sarar com salivas, as porradas e os solavancos do teu pescoço, com o melado das assírias, com as ervas e corpos dos gafanhotos, com o mel cipreste do meu cuspe, da minha saliva, como uma cadela que é capaz de lamber o ferimento no lombo do seu filho, de outro cão. Eu queria poder gritar o que não sei se era dor,mas que estava sufocado? Ou partia em revoada como um novo conceito no final de tudo, para um céu menos lacrimoso, mas muito mais cruel do que todo o seu medo. E você, que não sente grandes medos, da vida, dos outros, dos homens inseguros, eu gostaria de aninhar no meu peito e te deixar falar tudo sem dizer sequer palavra, posto que fosse sabido que de tudo eu pela nossa mágica e enluarada ligação, te faria descer até os solos porosos do meu coração trespassado de batidas e córregos de sangue por teu presente corpo colado no meu, pelo cheiro doce dos teus cabelos, agora aloirados de sol. E eu apenas te daria prumo no meio de tanta incerteza que o mundo insiste em corroer, no meio de tanta definição pré-suposta e administrada. E se preciso fosse, diante do teu tempo, pelo nosso tempo eu te diria mais uma vez: __ Volta para festa! Dança com a menina mais linda e esquece o que eu fiz com você essa noite!_ mesmo sabendo que as etílicas destiladas babas que tu bebesses, não seriam mais alcoólicas e perturbadoras, que a lambida que eu, cão, daria no teu lombo, na tua carne, nas tuas feridas, nos desvãos das tuas palavras, respiradas com pressa e vontade logo de ir embora.
Eu começaria este texto de novo, tentando te dizer, que todos somos marginais, porque a margem de toda compreensão estamos, a margem mirada da compreensão de nós mesmos, não estamos distantes da assumida e presumida ação de preconceito dos meninos, dos crioulos, negros pobres da educação e da necessidade, quem sabe a cada soco, de serem você, tão bem equipado diante do mundo, para eles, tão reto no teu caminho pra casa, do que se passa a necessidade destes outros marginais por tanta violência somente investigando e não muito difícil nos seria a resposta, com o tempo voltado para eles seria possível saber. Mas não quero assumidamente falar deles, quero falar do “casal de homossexuais” até segunda ordem frágil, por sua assumida condição e te perguntaria, porque frágeis se susceptíveis e perecíveis todos nós somos. É bem verdade que tantos “gays” morrem espancados a cada dia, atravessados por galhos e troncos nos seus buracos e cavidades do corpo santo que outrora sentia a elegia da oração dos orgasmos, também marginais? Eu te pergunto! E esta condição de fraqueza e de susceptibilidade a eles seria dada porque são dotados de sensibilidade e a sensibilidade foi coisa criada para as mulheres? Mas você chorou, as meninas choraram, os meninos enamorados (“gays”) correram de volta para outro caminho e teu amigo também chorou, copiosamente numa cobrança absurda de não ter conseguido proteger a todos os desprotegidos da noite. E com certeza se não me falha a boa e incontestável intuição, e que nos salve sempre nela a boa lua, os meninos negros, os crioulos marginais também devem chorar em algum momento de suas vidas, talvez chorem todos os dias e precisem de armas compradas a preço de drogas muito mais consumidas, do que vendidas, para meter medo a alguém e se sentirem importantes.
Perdoe-me meu querido e amado príncipe das marés e das auroras boreais, mas jamais ouviria tua voz nas tuas palavras tão precisas e por mim tão capazes de serem sentidas, passo a passo, cada polegada de som ou ruído dos teus dedos, o teu peito comprimindo-se em espaçadas composições de revolta e água de segredo, sem que eu pudesse falar de toda a questão que envolve o mundo dessa ocasião, sem que eu pudesse deter é claro, porque se te ferisse eu, segredo, jaziria nas entranhas afamadas da terra. Como tu moras nunca morto entre e por debaixo das minhas peles, na estrutura e na nudez e na corrente dos meus ossos, ponte para o espírito, eu te desejo e fecundo no espírito e dentro de mim, auroras boreais; de um roxo fecundo, bem distante daqueles dos forros dos ataúdes, eu te diria que a vida começa roxa, convertendo-se em vermelho rubor quando decide nascer. E é sempre assim, bastava que arriasses as calças até os joelhos e examinasses qual menino, trancado em banheiro de escuta, santuário de espelhos docemente carcomidos pelas rudezas das ferrugens, que é o ouro que o tempo permite e te depusesses a admiração do teu sexo. E porque tudo é rito, tu te excitarias e quantas surpresas ao perceberes que as mesmas cores do mundo residem no meio das tuas pernas, no veludo macio dos teus colhões, das tuas coxas, na cabeça transtornada de carinhos esquivos do teu sexo. E me sentirias ali, sobrevoando como um vento inócuo e presente, sempre constante nas paredes e nos azulejos desse banheiro que mesmo sendo de estruturas modernas, jamais conseguiria deixar de ser ancestral, porque ancestral é o desejo, milenar é o mundo e infinita é a marginalidade de desejar.
Então é hora de perguntar:__ Mas meu Deus, que ser é esse que me procura nas entranhas e vagas mais imprecisas? Que insiste em querer me perturbar e perfurar as vaguezas mais imundas e por tanto só minhas, porque ele insiste em querer nascer lírio nos lodaçais n’onde somente eu decido o que quero deixar pisar?
É porque, senhor lindo das auroras, ter te visto e esquecer teu nome, o que vem antes do nome é impossível! O que te presume, o que te pressupõe a mim não te constrói, mas o que te escapa e te edifica de pura e majestosa coragem__ e não é pecado sentir medo! Ele é o tempero do tempo dos nossos encontros nunca tardios, sempre amadurecidos, nunca devesos, sempre colhidos do pé, na hora certa de sorver o sulco do aninho e da bondade das árvores.
Ontem, quando o carteiro de vento bateu à porta e eu estava letárgico, adormecido diante das fibras e voltas de inglórias da minha tramela, na busca de fotos e fatos e palavras que me devolvessem a corrente boa da comunhão com a minha própria natureza e você me veio, cântaro cuidadosamente regado de destilados azuis, da água tonta que te deixa mais sóbrio e mais ciente do que é o mundo, quando o verdadeiro mundo corre mesmo é por dentro de cada um de nós,ontem quando eu vi tuas palavras endureci amolecida nuca de desejos e pequenos sóis. Quantos nós, quantas fitas coloridas de cetim, quantos lençóis estendidos num varal de quintais de ventos e correrias, quantas árvores boas, quantos matagais, quantas plantações de mostarda dando flores amarelas, para eu colorir teus cabelos, entre os seus dedos, florinhas colhidas no mato mais selvagem, quantas músicas ôcas e simbioticamente liquidas, sentirias com teus lóbulos, tuas orelhas mordiscadas, tu ouvirias com o corpo da suntuosa arquitetura dos caramujos, quantos presentes no mato de minha infância eu te daria! É assim, porque quando falo contigo, renasce constante e quase sempre o menino que um dia eu fui, que ainda sou, que ainda insiste em vigorar nos altos pomos da minha envelhecida e ainda pouco resguardada vocação de sentir. Creio que a paixão seja sempre menino. “Petit”, Niño, Criança, infante, menino.
O pornógrafo

2 comentários:

  1. Assisti e senti como num cinema

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  2. Aproveito para adentrar nas tuas entranhas e ao introduzir-me nas tuas vísceras virtuais cobrar-te do testemunho que me deves

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