sexta-feira, 11 de novembro de 2011

La lune dans les oreilles






Tomado pela lua, pelas ruas, ele caminhou até a sua casa. Do outro lado das cidades, dos rios, dos veios e trilhos que cortavam ainda a cidade ladeada de matas, cascatas de flores recém orvalhadas, envernizadas pelo gozo fino da noite, apressava seus passos para chegar até a cama, n’onde pousaria seu corpo branco de cera alva e de carregadas inquietações altaneiras, poética juvenil de moços. Deitar seu corpo vestido de nu, do preto, negro, “noir”, dos sutis cuidados de dormir, sentir da ponta dos pés até os revés dos lóbulos das orelhas, vontade sublime e sazonal de ouvir, nos abismos dos ouvidos, a voz do outro, desconhecido.
Coroar e corar com licores bentos a boca e porta da boca do seu sexo, com venturas desiguais, ancestrais, divinais, reconhecidas, desconhecendo todo o curso e o percurso feito no feitio de até então, para apenas deixar que sofismadas ainda vontades, cobrissem de lençóis de gases, ventos subliminares, delicadíssimas teias, forrassem seu corpo, num coro silencioso e intrigante de palavras entre cobertas de pureza e do extrato do pólen colhido das flores, reunindo num só ramalhete nas mãos, o caule duro e teso do próprio pau como se também fosse o pau do outro, o deixando apenas latejar como as fluências de um cio mudo e ao mesmo tempo ruidoso.

Dei para ti, nesta noite de timbradas colorações de prata, o licor desses venenos esporrados com a ponta grossa do meu carinho. Ofertei com sabedoria calada de intuições que só um homem híbrido como eu, farto de ranhuras e cansado de tantos desenganos, a minha pureza já não mais alcançada, lançando hora de escambo e troca, permitindo de mim ser novamente criança.
Pude então perceber que falando da mesma língua, tanto ele quanto eu, desejávamos a mesma língua, a que exaspera com percursos molhados e pontiagudos, o contorno inteiriço das pernas, as cavernas da boca, dos buracos do corpo. Não nos faltava razão, pelo avesso, insistente ela nos procurava em busca de justificativas, solfejando nos nossos intervalos, porquês. E para ele eu desejava dizer que nem sempre existem porquês a serem perseguidos e procurados. Quando o pessegado pomo de nossas bochechas riem sozinhas, quando as nossas linhas mais fortes de expressão da face, apenas querem cerzir das tensões, novo tecido, novo motivo, é preciso deixar e apenas ser. E fomos, por horas intermináveis, que não queríamos fim daquela noite que nunca trespassava alvorada. Não era noite do sol, apenas que nos queimasse o colchão generoso, mas era a noite toda da lua para as penas e pernas entre abertas da tarefa de deixar que o fruto em definitivo se aleitasse, se deleitasse e depois esperasse o outro dia. Não para incertezas, não para abandonos, não para os séculos de insegurança, muito menos ou contrário, não era para “carpe diem”, era para abrir a estrada, descampar o caminho e deixar seguir, com o cumprimento de beijos profundos, sem fim...


O pornógrafo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Le miroir que Alice a pas




Quando o sol nasceu e eu já estava deitado em minha cama, despojando tudo que me sobrepujava de pesos, ainda assim meu corpo cansado de idéias, pesarosos pomos de frutas que me enfastiavam, pesando sobremaneira o estômago aflito das emoções, pensei em levantar do jeito que estava, caminhar até o lavatório rosado e vomitar.
Vomitaria sem medo de esgoelar os anéis curtidos da garganta as águas todas, tolas, que de mim insistissem em permanecer, estar, como verbo apenas de passagem, que não liga, que não move, que não acrescenta, que não levanta vôos e nem alça lençóis para velejo. E o que vejo, é que este homem assim como eu sou, também tem suas usuras, suas tonturas, seus perdidos pontos de eixo, mas não costuma tanto falar, pelo menos no tom lagrimoso dos pastoris, dos cantores de outrora castrados. Não sou castrado! Nada me castra! Meus colhões são, sobretudo, mornos e quando esquenta a cabeça em conjunção maior com a lua, torrentes pêlos de aloirados vermelhos o queimam e fazem doer, a boa dor do gozo. Sempre gozo, mesmo que acometido de alguma dor.
Vi de mim, do mesmo alto desta cama, o corpo jogado, num abandono, que não pretendo classificar se bom ou mau, porque não sou filho das igrejas e muito menos dos ortodoxos conceitos desses julgamentos. Apenas me vi e me constatei.
A casa vazia, jamais abandonada, deixava nos entres dos espaços e cortinas o meu cheiro, assomado ao muitos cheiros dos tantos fundidos em mim, dos tantos perpetrados, penetrados, dos meus amores e paixões. Era um alarido só, correndo na balsa de ar e vento e silêncio, silêncio, silêncio... Um fragor de inocência correndo pela casa do pornógrafo, como uma criança de cabeça dourada, nua, peste, alegrada pelos arrulhados passarinhos piolhentos do quintal. Encantado com os diamantes de poeiras, qual tumbas de um imenso organeto de catedral e apenas uma janela quebrada, dando alegria ao chão melado de indecências do dia, que ainda deixava suas gosmas tímidas pelo chão da casa.
Era dia de vibrar, de sentir cada poro, de ouvir Maria Callas, “La mama morta” avivando com uivos de pomba, de coruja, de loba traiçoeira, brega, empertigada, de nobreza fedendo sudorípara debaixo dos panos de seda. Era dia de levantar da cama com as dobras do corpo nu, cheirando a tudo que os dias reuniram. Era dia de mansuetude e verbo galopante, peito suspirando, compasso, vão. E erguendo a imensa altura deste corpo meu, sussurrando a pele do meu saco, das minhas bolas protegidas pela pele dos pêlos bravios e longos do meu escroto, eu, que jamais deixaria fugir um só aviso de desejo, pude sentir que de dentro do meu corpo, às minhas pernas, as minhas coxas, o restante inteiro dos meus membros davam bom dia. E me tocando, caminhando de entre abertos dedos marginais pelo solo da casa empoeirada, procurei da sala o carpete mais surrado, mais cheio das marcas dos pés dos visitantes, para os arreganhar num arco inteiro magistral. Quem me visse debaixo, debalde, vacilante, esfregando, com as mãos também gigantes o corpo todo, o peito, o tecido das mãos, as costas das mãos, encontrando na agilidade dos dedos, ajuntados gravetos, que mais estreitados, toras, mastros imaginários que eu chuparia com sabor e sapiência, com pedidos de clemência enviados ao oco do dentro do meu próprio mundo, num segundo, quem me visse do alto de toda esta estrutura, com certeza me diria: __ Esporra, pornógrafo! Explode porra, plasma e leite dentro da minha boca! _ eu sei que eu deitado ali, me diria! E ri, num soslaio de vento guardado no interior da boca. E como uma fruta que se esmaga até o sulco do próprio pomo, fiz de mim nesta toda boa fissura. E se eu pudesse! Ah, seu pudesse! Adoraria nesta hora célebre, divina, ser como os admiráveis contorcionistas dos circos mais pobres, ricos na sua infinita e grandiosa lona furada, suscetível de verdadeiras estrelas e também chuvas, para beber das minhas próprias águas tempestivas. Mas apenas deixei que a minha imagem refletida por mim mesmo, tão generoso, apenas fosse minha, somente meu, o espelho dessa mente amanhecida, no chão do meu carpete empoeirado, até que a fruta perdesse seu contorno, sua pressão tremulada na tensão até gozar, gozar, gozar.
Chorei, sem nenhuma melancolia, ameaçando levar à boca os meus gostos, meus constatados sabores, mas apenas, os esfreguei com carinho de benção, no bico dos meus mamilos de macho duro, dobrado agora em inspiração para dentro agraciada, depois por metade do meu rosto. E calmo, sem pressa, como um felino, tão inteiro e desconstruído, como um menino, caminhei para a minha bacia de banhos.

O pornógrafo

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Les infirmières de Paris




Eu sou o almofadinha das meias sujas, das cuecas rasgadas, do corpo floral, de cheiros madrigais e de fustigadas e odoradas entradas de pêlos, com perfume ocre e intrigante de virilha. Eu sou o corpo e sou a trilha de incansáveis, perpétuos socorros. Nossa Mãe que nos proteja, da desgraça de nada sentir, porque da necessidade pressuposta de ser emparelhado em fila de bem sucedidos! Bem suceder, para mim, nestes dias, seria comer o teu cu, o teu corpo, teus buracos, tuas entranhas; primeiro, com a língua, depois com a massa de tora e de nervos do corpo do ventre baixo. Alteado em misericórdia e tontura, uma vontade tanta, imensa, como uma elegia, uma alegria de ouvir o teu gemer.
...
Desci correndo as escadarias do prédio de altíssimo azul, de elegantíssimos brocados, de esguia construção, mesmo sendo céu, ele, o prédio, não tinha a pretensão de chegar aos limbos e muito menos eu. Cheguei esbaforido feito um cavalo, suando os meus melhores ternos, querido e possuído de vontade em mim mesmo, de vagar as ruelas da cidade intransferível e bela de Paris, dos anos cinqüenta, ainda conservada em magenta, coloridos mortos, ancestrais trespassados tortos que por ali passaram e passavam assim como eu. E ao chegar ao chão de pequenos trilhos e contornos, estendi o braço forte para o trem e pedi passagem a alguns senhores fedorentos que estavam perturbando meu caminho, o meu dia e minha entrada. Em seguida, procurei com os olhos, com os ovos e os colhões, daquele enfileirado de cadeiras mal asseadas o melhor lugar para poder me assentar. Nenhum lugar, apenas um jovenzinho, enfermeiro todo vestido de branco, com um pequeno detalhe azul no brasão que lho compunha o uniforme de trabalho. Sua cara, de antipatia e sombrancenlhas torneadas de uma apuro, de um cuidado rubor que eu seria capaz de dizer de seu sonho, vestir do baú da mãe no quarto mais vazio da casa, enquanto todos dormiam, o mais lindo e torneado traje de festa e cantar, segurando com fervor e selvageria, o vidro peniano de perfume, que também lhe serviria de consolo, de prazer e desarvoro, nas horas em que se acocorava em cima da cama fofa, para dizer : “__Vinde a mim, mon garçon! Me enterra esta tora até os confins do intestino moço! Vinde a mim!”_ quase bíblico e sacrossanto, como um punhal devassando flanco carne a dentro, no buraco perfumado do seu anus de não mais menino. Adolescente? Talvez, pois que o trabalho em tudo o compunha.
Caminhei mais três filas e me depus corpo inteiro também azul meu terno como o prédio, sem pressa alguma de subir , encostando o meu corpo, metade das pernas e subida do tronco, no seu ombro esquerdo. Simulando, desequilíbrios pelos solavancos do trem, eu me deixava cair cada vez mais, à medida que o sentia pressionar, impressionado com a leitura de um livro de poemas de Santo Agostinho, rapidamente retirado da sua bolsa de couro escuro de fivela arrebentada. Eu odiava Santo Agostinho, mas não me interessava agora, que este saber me fosse interrupção, já que me era ponte sublime, vadia e subliminar para que eu fosse esfregando, pouco a pouco o meu pau no jovenzinho enfermeiro! Tão lindo, de sobrancelhas alteadas, sofismando vontades pelas leituras e sorrisos incapazes de rirem até o fim da boca, pela minha atitude de homem criado, malcriado, grisalho, embora senhor das idades e sempre juvenil.
A velha ao seu lado,se levantou dando lugar para que eu sentasse, mas fiquei de pé, permaneci ali, parado, teso, cheio de uma ereção bombeada do mais puro sangue, cavalo de mais puro sangue , eu sagitário, esperei, pacientemente em meu galope que ele, o menino, me ofertasse o lugar vago, e quem sabe, também os buracos do próprio corpo, os olhos virados para cima qual santo flechado tão sexy, São Sebastião! Ou da própria Santa contemporânea tão perto de nós pelos anos, Teresa de Lisieux e seu olhar pequenino de amplidão e doçura_ e assim o fez “__Senhor, pode assentar-se, o lugar está vago.” Mansidando meu corpo, escorregando lentamente o linho de casimira, das minhas calças de botões dourados, quase estourando pelo relevo dessas emoções de sangue, que só o homem pode compreender vivo em si mesmo, dentro dos próprios calções, das próprias canções veridianas, dissimuladas, me conduzi ainda de frente, oferecendo a fronte e todo o curso de minha altura, primeiramente os meus olhos e para depois, em fim, me depositar pesaroso e macho ao lado dele, moçinha.
Não apelei para nenhum truque. Não encostei a coxa nem abri com largura de covas as pernas, não suspirei alto, não tossi, não fiz de nada do que é fácil para o que se compreende sedução, à todo embaço e embaraço, desses caçadores vulgares de trepadas e gozadas furtivas . Também não me fiz príncipe.Não era príncipe; era o corpo sujo do suor do dia, dentro das roupas de carinho amassado pelos atropelos e esbarros das horas.Era o corpo nu quem dizia o que fazer, sem ao menos me datar, obrigar ou dizer com fome de nenhum grito, o que eu naturalmente deveria fazer. Porque eu deveria daquela hora, alguma coisa fazer. Isso estava certo. Era certo. Principalmente pelo pedido daqueles instantes, desde o tropel dos meus passos largos na escada; desde o burburinho falastrão dos homens e mulheres no trem que não era de carga, mas era pesado e cheio de invirtudes, tão visíveis perturbações passeando na cidade velha ou seguindo suas denominadas direções. Percebi no pescoço torcido, as ruas que não me diziam mais nada, as árvores próprias e copadas de floradas estações de primavera, que mesmo eu, virado em contrário, tinha o corpo prostrado em oferecimento nada sutil ao que dos olhos saltava das letras, o desinteresse pelas palavras chatas de Santo Agostinho, para o meu pau duro e flamejante, pulsante, elegante, a tora se movia enquanto o menino, suspirando, taquicardia e busca rápida de atitudes na sua bolsa, guardando mais que depressa sua encadernação velhaca do Santo, agora desinteressante, como também o era para mim. Mais do que nunca éramos comuns. Vontade em comum, desejo em comum, somente um dedo dobrado, não ainda em riste tocando o meu ombro, para me indagar:
__O senhor, me perdoe, mas poderia me dizer as horas?
__Não tenho as horas, tenho todo o tempo do mundo, tem muito tempo que não uso mais relógios! _ frase de efeito, mas nascida de umas rebarbas de poesia, ele precisa sorrir para mim.
E sorriu.
__Me desculpe! Eu perdi o meu, relógio! E agora vivo assim, sem saber ao certo a hora para onde vou!
__Isso, não me parece tão ruim! Eu pelo menos já não tenho tanto tempo para correr. Longe de mim dramatizar. É que sou mesmo um desocupado, não estando mais nas mãos do trabalho, ele é que está em minhas mãos, compreende?
__Creio que sim! Mas é que para mim, ainda não há tanto passeio.
__Meu passeio é meu trabalho, trabalha comigo hoje então?
__Acabei de chegar de um plantão de estudos, ainda não sou formado, mas quero ser médico. Por enquanto sou apenas um enfermeiro_ e vulgar_ o senhor tem algum ferimento que eu possa tratar?
__Tenho aqui, na altura do ventre um fato no mínimo interessante, que acontece comigo desde que tinha uns sete anos, mas que até hoje me assusta quando acontece, posto que sempre me parece a primeira vez.
__Tenha o senhor certeza de que eu o percebi.
__É que toda a vez que vejo um moço, lindo e frugal como você, ele cresce, se enche numa aceleração natural e como uma fruta de vez, amadurece, fica duro, lateja, sabe como é? Sente vontade de se meter corpo a dentro, como elemento ajuntado, somado ao corpo de figuras que precisam dele. E é quase incontrolável doutor!__Interrompido por ele.
__Ainda não sou doutor, apenas um enfermeiro!
__Mas que já me parece saber muito das coisas. Não é?
__Sei sim, que daqui há duas quadras de árvores seguintes irei saltar desse trem...
__E me levará consigo!
Se levantou dado de uma só vez, lerdeando seus passos, como um potro que esmaga com doçuras femininas e cuidados,a terra para não esmagar os pés dos fedorentos e ficou me esperando, na altura em que o bonde permitia saltar. Somente nessa hora me levanto, deixando que o azul dos meus contornos faça sombra e reverbere no calor do meu assento fundido ao da velha de rabo gigante; o que muito me aqueceu de doenças e corroborações. Saltei do trem uns dois tempos depois do seu pulo e caminhei sem dizer palavra, até que ele parasse enfiando a chave de bronze velho na fechadura da porta negra e imensa. Casa nobre, de fachada elegante, porta aberta, tapete vermelho, imenso e empoeirado, empregados ao corredor, pais sentados à mesa e nenhum incômodo da parte do enfermeirinho.
__Papa, Maman, este é o meu professor de inglês. O senhor professor deseja comer alguma coisa agora?
Sem nenhum susto, apenas mais ainda excitado respondo.
__Agora não, quem sabe daqui a pouco...
__Então vamos? Para o meu quarto, lá me concentro melhor. _Tinha o incrível dom de dissimular, de parecer natural como um ator inglês, sem nenhuma afetação ou tremor que o depusesse contrariedade ao verbo, me oferecia dos seus braços longilíneos a mão e o caminho, o endereço certo do seu corpo, do seu quarto. Era sem embaraço, sem perturbações maiores que o deflagrassem qualquer possibilidade de escôo ou fuga. Ele queria e eu também, para isso era preciso cumprir, fazer, armar e dar condições. Chegando ao quarto, depois de percorrer as escadas do fundo do corredor, uma porta entre aberta e cheia de livros sobre a cama. Quarto de menino, de educando e eu era o educador?
__Feche a porta, por favor! Mas não passe o trinco da chave!
__Como você quiser.
__Quero examinar o que te intriga, coloque para fora da calça para que eu possa ver.
__Se quiser posso retirar a calça toda. Acho que sem essas roupas pesadas você poderá ter melhor condição de saber do todo.
E me ajudando, primeiro arriou as minhas calças como se fosse dono do meu corpo ou cumprisse a função de pai que todos os médicos acabam sendo, sem pretender. Celebrando frieza e olhos fixos, deixou que ainda permanecesse a cueca, a mais velha, a mais suja, a mais amarelada. Por debaixo de tanta pompa, rasava as mãos compenetrado por baixo das minhas pernas, apalpando com força minha virilha, meus lados, meu escroto, minha bunda, quase num abraço, solene. Inventando nova medicina, abraçava o meu corpo discorrendo todo o braço até que a face ficasse suprimida , boca e narinas dilatando os cheiros e a salivada gosma de hálito quente, como o verniz de uma romã em viço, enquanto eu, apenas deixava que eu fosse o seu brinquedo, sua religião, sua ciência. Desatando os braços do amplexo da cintura, querendo nu todo o meu pau e sua estrutura de veias e perfumes rosáceos. Íngreme, abriu todo o anelado da boca de carne e primeiro o supôs , para somente depois fazer intenção de o engolir, e por fim o colocar, como diabrete faminto, como um bezerro desmamado no inteiriço da caverna do palato, os dentes cuidando para não bater e a língua tremulante das esperanças francesas. Chupando como animal desavisado dos adestramentos, era ele mais faminto que eu, oferecendo comida a um desavergonhado luxuoso de tecidos azuis, enquanto por baixo se guardava numa cueca suja, gozada ainda do corpo de outra puta, cantora, atriz, senhora de um cabaré, n’onde provavelmente ele nunca cantaria.
Dessa trindade de olores, vi quando no lânguido dos seus ombros e da dobradura do seu abdome, ele me pedia, já sem forças, domínio. Dominar seu corpo científico de menino quase doutor, para lançado em cima da cama, no meio dos livros de religião e anatomia, retirando da boca para colocar no buraco agora sim, premiado, até que ele gozasse o fenômeno dos seus leites, enquanto tinha dentro, não um vidro de perfume, até dizer trincando os dentes, desarrumando os cabelos dos penteados de passeio: “Vinde a mim, mon garçon! Vinde a mim!”

O pornógrafo

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Le temps de sauvages noirs



Os cães uivaram no mata e a porta da cozinha sempre aberta, junto com eles, seu grito de aviso que estava por chegar. As portas da minha casa sempre ficam abertas para os cães, os estimo, mas nunca os faço de “estimação”. Desta animosa feitura que os homens compõem como carinho e cuidado, para ter dentro de suas casas, no seu presumido cuidado e zelo; meus animais são libertos, livres como eu sou também, não me quero donos deles, nem muito menos donos de mim, numa fastidiosa e consumida relação de precárias côrtes e desejos cobrados, nunca cumpridos.
Os cães uivaram na mata que dava para a porta da cozinha, as vidraças quebradas, deixando rombos antigos de pedradas altaneiras de meninos, recém descobertos, punheteiros envergonhados de si, querendo e precisando demarcar suas fúrias e vontades molestadas em si mesmas, pelas culpas e segregadas ações, muito primeiramente atávicas, munidas de uma educação que não me compete aqui discutir_ não sou pedagogo! Não sou professor! Não sou o que os títulos enobrecem! E muito pior interessa a tarefa de ser pai desses meninos, que rompem a mata de volta à suas casas, cuspindo insistentemente nos caminhos e trilhas, nunca escondidas, mas cheia de mistérios bons, da salivada boca do gosto do meu pau, a desmesura que em poucas horas antecedidas, a eles próprios, era de todo prazer.
Os cães uivaram e ele gritou seu uivo junto com eles, posto que sua feitura fosse toda, de arrimados músculos não mais adolescentes, embora de púberes cortes, fosse todo o entalhe do seu corpo nu. Não me acometia nenhum susto, fui batizado nas igrejas mais pagãs e tortas pelos pais mais certos e convencidos de que, talvez, eu viesse a ser a riqueza da família. Enriqueci, todo amparado por coléricas profissões que não me convém aqui dizer, não me interessam também estes nomes, estes títulos, vá que eu possa ser um médico, um doutor, o cardiologista da sua família ou quem sabe um renomado figurão de encarregados postulados civis?! Deixa então que eu gargalhe, porque nenhuma dessas é a minha profissão, não sou nenhum novo rico, sou apenas pornógrafo, sou apenas a pena de mim mesmo e dos que me fogem com medo de depois da festa de pequeninas luzes e intenções.
Preciso tomar um banho e não paro por nada minhas arraigadas e arrogantes minúcias, para receber ninguém, por isso deixo sempre a porta aberta, correndo sim, eu sei, o larápio risco dos ladrões e malfeitores, que não me conhecem sequer a capacidade de ser maldito, de ser esperto ou medroso; do medo, só sei quando me deparo emocionalmente com ele, porque do físico nada mais me atormenta nos tempos infernais de hoje.
Disponho de certeza quando sinto o cheiro do presente corpo acalmando antes aos cães e enquanto dispo parte a parte das minhas roupas, imagino que ele está de quatro, porque tem o dom de estar, assim como eles, latindo ou rosnando, palavração sublime e endomoniada de uma invejável soltura e beleza, quando a espinha se distende numa curva e sinuosa estrada para dar vantagem as suas ancas, já por mim constatadas e me excito. Nessa hora sei quem vem. Quem entra a porta da cozinha abrindo primeiro sem rudeza nenhuma, sabendo já não mais me fazer surpresa alguma, para ganhar, descalço, pés de negro que se confundem com as rachaduras da terra, até chegar a porta do meu banheiro e me dizer:
__Senhor, posso entrar?
__Na banheira?_ e porque de mim nascera bom sorriso, a cabeça do meu pau em eriço, esquentando cada vez mais doçuras, levemente produzindo verniz de suntuosas doçuras dentro da água de banho_ Mas primeiro lave os pés, que você assim me faz achar que estamos num rio e quero você primeiro em condição igual a minha! Porque não me chegaras antes? Assim era corpo sujo, dado a corpo sujo, cheiro azedo, dado a corpo azedo, ao copo da boca, sem as frescuras do perfume de flor e cinza dos sabonetes lustrosos! Por quê?
Lavou, mas que rápido os pés na pia rosa do banheiro e eu ainda disse para que tomasse cuidado para não escorregar no chão que ficaria molhado, para que não batesse ou debatesse a cabeça no azulejo frio sem motivo que a ele fosse bom. E porque a água estava quente e nem um frio lá fora, para ele sem camisa, apenas com as calças do trabalho, quase estivador, não fez pressa em me perguntar quase servil, se preferia que ele próprio tirasse o restante da roupa ou se eu o preferia fazer, emprestando “levítica” doçura de ritos primaveris e sempre constantes na anunciação do que para ele já seria sexo.
__Deposita primeiro o pé, um de cada vez, para sentir que no fundo do rio já existe um corpo, felicitado._ Eu ri!_ Porque hoje ele também quer o corpo teu. Depois com o outro pé, busca na banheira uma parte que te dê segurança e escolhe o ângulo certo para assentar tuas ancas sobre esta parte que é toda tua nesta hora! Faz assim, de um jeito sacramentado, faz que eu ficarei feliz!
__Gosto de ver o senhor sorrindo, gosto! Gosto tanto, sabia?
__Não sabia não! Você nunca me disse, mas pode dizer isso enquanto senta, diz! Diz então que gosta de me ver sorrindo e me empresta a tua paz enquanto senta e gorjeia teus lamentos e cânticos profanos, santos do mato te trouxeram aqui eu sei! Demônios da mata de soslaio te fizeram lembrar de mim neste fim de tarde fria.
__Mas não estava frio lá fora senhor! Eu estava no chão com os cavalos, corri pelos campos, brinquei com as crianças e depois resolvi que queria vir aqui para brincar com o senhor, que sempre é bom de um todo para mim! Amo o senhor sabia?
__Acho que sim, porque também sinto amor quando vejo que você vem de bom grado a minha casa, que você não se prende em amarras e nem deixa de ser para as outras pessoas, para as tuas meninas, tuas promessas de casamento, sem jamais me esquecer! E me desculpe se pareço pretensioso!_Enrubesci de mentiras e verdades cruzadas dentro de mim, porque sou feito de prazer também igual, quando encontro alma justa, que me mereça.
__Não tem que ter dúvida disso não, não senhor!Não te dou motivos para isso, dou?
__Dá, para mim, somente agora, o que me quiseres dar e daí eu terei certeza! E não faz muito tempo nas paragens nessa minha elegia de pequenas e falsas aras, porque eu quero mesmo é que sentes todo no que você tanto gosta de sentir entrando em ti. Dá?
E feito dessa tonsura, dessa tontura, ele que era corajoso e decidido, vinha macio e franzido o cenho, a testa, o pescoço revirando o imenso pomo de Adão para trás, pelos músculos também muito bons de morder, do seu pescoço de negro moço, enquanto encaixava sem nenhum problema de transformar a pequena dor em prazer, em momentos esparsos e dançantes, como o lundu de tribos antigas, como o aluno se dava ao professor na esperança de jorrada sabedoria dentro de si. E meus cabelos eram tocados por suas mãos toscas, grossas, meigas de calos e de esporas, eram puxados meus cabelos e o centro do meu corpo, o meu ventre e meu peito para junto de si, para a sua boca de carne negra e gorda, lábio gordo, encharcado da pólvora da poeira dos cascos de um cavalo de tropel nada macio, resfolegado e febril. Vibrante e febril, trêmulo e jamais cansado de galopar e correr as matas viris do meu colo branco, minha virilha de algas flutuantes. E como era bom, eu preciso dizer! Como era bom me sentir amado sem pressa, sem mesclas de covardia ou medo, porque quem tem a boca cheia de fogo ou queima a língua ou cospe fogo! Ou teima á míngua ou faz o jogo certo de sua natureza, toda própria de obediências boas, sem pecado! Sem o peso cristão do pecado, ele era meu e eu era dele, sem nenhum medo ou sino que nos depusesse segredo ruim! Porque quando eu entrava nele, tenho certeza que os dois, dávamos bela, a presença e a certeza da companhia de Deus entre nossos orgasmos e mágoas da vida, trespassada, pela excelência grandiosa de não termos razão para fugir de nada e que àquela hora, era somente nossa e de Deus, espalhado na figura de mil outros deuses e cães e bichos todos outros espalhados no alarido misterioso da mata, da floresta de todo o mundo.
Ele, talvez tenha sido até hoje o único homem para quem eu tenha me dado em constância de tranqüilidades e nenhuma grande necessidade de placebos. O meu verbo era feito no silêncio e sem nenhuma escola de maestria, porque ele era todo bicho, era capaz de ouvir. Assim como os cães libertos soltos, do mato, que protegem e governam a mata e por generosidade, também os arredores de minha casa.

O pornógrafo

quarta-feira, 8 de junho de 2011

L'agneau blanc d'un millier de soleils!



Para L.

Descia sobre os seus olhos uma enorme fenda, uma desobediente e inescrupulosa luz de manhã. Da luz das manhãs os trigais serão sempre dourados e belos, resfolegando a teia doce da pele, uníssona e coberta apenas pelos trigais menores, se amontoando em doce conversação em volta da boca, do sorriso primeiro, as pratas de marfim tão branco! Quando se fecham, são protegidos por carne rosada de aurora, como o rubor das putas, os carmins das francesas e jovens travestidas de santas, pagãs, os lábios são de suntuosa doçura, podendo esconder entre as lápides dos dentes afiados, parecendo de leite, o pão e o leite que fustiga a palavra que se esconde e se revela e se mastiga para depois cuspir quase nunca de uma só vez! Ainda sobre o leite, a mão e os dedos longos eu logo pude sentir na hora da primeira saudação! Os braços, grandes, a generosidade sem tamanho, no minuto do abraço. Anacrônico, nem pude contar seu tempo! Posto que fosse certo em toda a minha boa bruxaria, que o tempo era enguia, revirando-se jocosa por dentro em antepasto de reconhecimento.
O cordeiro, de cordial, de animal comido e preparado com ervas em festas de fartos ciganos como eu, nunca passaria despercebido à minha fome! Nunca!Em jamais tempo algum, uma elevada estrutura de arrimo e cuidado, sofismando resguardos, passeando nudez, por debaixo e por entre os pêlos, jamais! Eu disse, jamais! Deixaria meu zelo descuidado dos minutos.
Era simpatia, trespassada de algum desarvorado medo, o meu segredo estendendo côrte e levantando as calças como a floração nada inocente dos trigais, dos milharais pontudos. Da polegada do meu sexo, bombeando sangue e completando centímetros de beleza, uma doce tora estendida para colocada bandeira de anunciação. E eu nem me sentiria vulgar, dizendo assim, deste modo, sabendo que meu corpo é santuário e que o dele era mais bento que os ungüentos cuspidos pela língua, na hora intencionada de adentrar. Eu sou erótico, mas não sou fácil! Não são de fácil compreensão os meus escritos, os meus arroubos e os meus gritos, minha mudança de voz e prosódia quando a língua se entorta em chegada dos vozerios de cima, quando a conversação invade o meu corpo num “espanhol” proscrito em minha mente, eu não sou fácil! Eu não sou fácil nem para mim, mesmo! Eu não sou fácil!
E se dizer ao cordeiro é receber indiferença redobrada em retorno, o caminho tortuoso que ele faz com relativo “prazer” entre os prados e montanhas para ser encontrado pelo pastor! Eu faço o caminho, eu grito nas encostas e matas e estradas e nos eitos de grama, já acocorada pela noite, eu grito! Não tenho por que, postergar a afirmação do que para mim fora beleza. Do que me fora fome e desejo. Mas faço tudo isso, com a consciência redargüida de toda a sua natureza, de toda a sua possibilidade de “inação”, de silêncio como esmero e cuidado. Mas de mim não precisa cuidar! Pelo menos, desse modo!

O cordeiro fala, fala doce, fala à voz que seu corpo anunciaria antes mesmo de vocalizar, porque nele quase tudo é harmônico, até a sua empáfia, a sua esnobe e ressentida forma de chamar atenção, distendendo seus músculos e todo a estrutura do espírito em silêncio de bolha, meticuloso, seletivo, virado de costas ele quer mesmo é estar de frente porque odeia o que é fácil, mas também odeia a rejeição da dificuldade! E isso tudo é lindo e me excita pelo meu respeito e sagração constante a natureza. Adoro o corpo frêmito dos animais nervosos! E os cordeiros não são menos selvagens quando se sentem enraivados.
Certa feita, no meio de uma festa, depois de “quase” me negar os olhos, passeando por todos os outros animais, o cordeiro se deitou no chão e fez questão de esticar o corpo todo para que o seu membro fosse visto nervoso, ereto, prometido para logo em seguida quem sabe, muito provavelmente ser negado.
Mas o que eu, um homem sujo e estampado de luxúrias e torpores na pele dos olhos posso dizer? Que eu, pequeno estorvo, medalhão de cafonices e ouros turvos posso dizer, senão que a minha safadeza é sim, a minha cara, mas que a doçura também lambuzaria de mel, nos mais ciprestes agridoces a comida toda do seu corpo, todo branco, todo manto de lençóis delicadamente arrumados na hora da visita, da minha visita ao seu quarto que ainda não aconteceu?
Pois, bem, abrasada a festa tinha também fogueiras e festejos maiores, mas eu me alimentei de pão sírio e de águas sevadas, as que semelhavam os suores das tuas axilas em trabalho, dos teus sabores por mim supostos, numa adocicada e severa condição de amargor, porque tu és todo lindo e dos teus olhos, qualquer palavra seria bendita, se tu sorrisses bem, mas bem no canto da boca! Não precisando, por suntuosa jogatina de naturais posições, que tu revelasses o branco tolo dos teus dentes semelhando ainda os de criança. E tua criança, seria deitada, provavelmente, primeiro sem nenhum tom maior de afetação no ruidoso rosnado do meu colo, do meu solo e quem sabe depois minhas ereções abusadas, desprendidamente despreocupadas do teu julgamento, depois que deposta a primeira entrega. Eu te mostraria como se faz para crescer mesmo sendo linda e louvada a infância, de redescobertas. Assim, imenso, do teu tamanho de homem, solfejando quase tristonho, porque triste e admitido, nunca! O cordeiro é vaidoso, eu tosaria peça a peça de tuas roupagens tão belas de vestir e fazer notória tua beleza, tua pele, teus olhos ermos de uma secreta e contraditória nudez branca e não sei porque latina_ porque também há cordeiros na Espanha, na Argentina, nos Andes, nos madrigais de toda América latina_ que para ser homem nos braços de outro homem, basta apenas se permitir depois de “velho”, doutorado e feito, pela vida, pelas rasuras do tempo, apenas ser niño, menino, ciranda, criança e te faria gozar, com amor, do leite que deleite já deveras há em teus colhões! Porque todo cordeiro é santo, como também é manto de carnes avermelhadas nas presas da boca faminta dos felinos, das raposas, dos contentes sanguinários ciganos tristes como eu.
Mas teu silêncio é longo e “indiferente” como eu já pressupunha, tua memória é peixe como eu já eu me depunha em confissão de sofrimento e negação a esta carne ilesa e difícil dos anzóis, tua certeza é incerta, posto que teu natural realejo esteja nessas danças mudas, mas mesmo amando o silêncio, eu sou amante dos gritos, das caras feias e expressivas, das dores e doces sofreguidões dos penetrados, dos perpetrados na luxúria dos buracos rosados, negros, nada secretos; mas teu corpo é etéreo e batizado é redimido e treinado para a negação. É hóstia jamais sofrida, que minha língua não pode comer. Esta ilusão não me é permitida, vulpe e adorador das carnes vermelhas, fico de longe contente apenas nas lembranças do teu sangue no rosto, como rubor.
Se eu te pretendi?Mas é claro que sim e talvez, eu disse talvez! Sem a pretensão de horas ou permanências, sem prisões ou decências, sem torturas ou imposições! Eu sou indecente, despudorado, sou de palavras febris e lagrimado, sou, redundante, desavisado, sou passional demais para você! Mas longe de mim sentir auto-piedade! Isto não é nem de longe uma carta de amor, para alguém que de distante, fugiu de medo? por não corresponder amor sequer experimentado, por mim, nem exigido. Eu sou potente e audacioso demais para depois da festa me enlear de auto-comiseração! Eu te respeito demais para sentir pena de mim! Eu quero gargalhar teu sorriso e te dizer apenas, que sem penas, nem houve tempo para expectativas ou lamentações e que o meu pau sempre suba, rendendo glórias ao teu corpo santo quando ele passar, quantas vezes ele quiser passar, passear, se perder ou sangrar pelas minhas trilhas de altas e ingrimes vertigens montanhosas! Para simplificar, toda vez que eu sentir tudo isso, te facilitarei, bebendo de ti um copo, um pouco, um corpo inteiro d’água, porque água na minha boca é vinho e o meu carinho bruto, nos altos frontispícios do arrimo de calças, para isto sou fácil! tu vais avistar! Uma ereção e todo o leite dessa tora “maldita”, rendida até os meus pés mais bizantinos e sacro-santos, esta baba leitosa e benta em homenagem desvelada somente a ti! Estamos acertados, cordeiro?... Agora, corre pelos prados que a ti impuserem fome, que te derem nome. Tua imagem, jamais, será esquecida! Por ti eu sempre hei de gozar!

O pornógrafo

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Parce qu'elle m'aime à l'os



...

Dei-te do meu cheiro fumarento às tuas entranhas, todos meus desejos, minhas rusgas, minhas rugas, minhas mãos, do meu sexo invertebrado quando contorcia qual serpente em nossa cama de silêncios, bravios, tão bravios córregos de um olhar tão pairado. Fascinando-se no ar, as bravuras desses braços que tocando em própria misericórdia, no clamor, no pedido, no eriço dos nossos pêlos mais íntimos, o som penetrado dos regatos, resgato a essência e o azedume olorado, que consome...
Dei-te as minhas mãos, enquanto tocando o próprio corpo, o meu corpo que era teu, tua casa, teu santuário, teu eito simples sem descampados, de doces pomos e frutos, pedia a cabeça dessa tora, desse tronco que espremesse por natureza, na despreocupada e aturdida repetição, grunhidos cânticos ancestrais, que por milhares de anos, homens iguais a nós dois, chorariam pela boca dessa fenda,dessa luta, desse pomo, o azeviche desse estrondo, numa cascata de leite, o deleite do nosso gozo até o fim, sem sono. Porque ele me ama até os ossos!

O pornógrafo

domingo, 8 de maio de 2011

La demande des trous ou des pédérastes Dos avenir




__O que você aprendeu não é sexo, é estupidez! Não começa nessas profundezas, nessas tarântulas sem veneno que são as tuas mãos! Isso, não é sexo, é estupidez, pura estupidez e necessidade sem noção, sem bom senso, sem tamanho apenas para tentar se definir!
Dito isto e me levantei de uma só vez da cama. Fiz silencio acendendo uma vela azul, que chegara com um móvel velho de decoração, desde 1930,35 e eu nunca a havia acendido, porque para mim não existia razão, não existia fé, nem suplício que desgovernasse a sagração da dobra dos meus joelhos, muitas vezes estourados, nos carpetes e chãos ásperos, duros, sujos, carpetes sem doçuras do felpudo, contrabandeados, baratos, de lugares mais baratos ainda_ Você pode imaginar de que lugares eu estou falando! Ah pode! Quero gargalhar, posso?...
Pois então, acendi a vela azul diante de um Cristo albino, menos estúpido e nu, todo vestido de um branco, sem “couleur” alguma, para apenas solapar naquela criatura tão “zinha”, niña, alguma espécie de silêncio, de introspectiva reflexão. E, para não confundi-lo, porque não me bastaria apenas falar de coisas simples e claras, retirei detrás do imenso Buda, que resguardava as fotos de “pinups” e putas de minha mãe, uma garrafa carregada de um velho whisky_ mais velho que a minha avó já morta.

__Bebe! Mas não bebe tudo porque no fim de nossa conversa, sempre haverá o risco de querermos mais um gole!
Só então ele me disse:
__Nós vamos conversar?
__Nós vamos começar de novo e sem nenhuma pressa e você vai me dizer se quer que seja assim, tão desprezível, sem nenhum sentir. Então bebe este malte rasgado! Esgarçando-se a si e a própria alma e a própria garganta em pedaços, mamando num só regalo, para depois, me dizer como se fora no começo, qual é o seu nome. Qual é mesmo o seu nome?
__Patrick...
E ficou quieto, vendo-se que não tinha costume de tanto amargor e azedume na própria boca.
__Patrick?_apenas fitei mais fundo_ E com um nome tão lindo, tão feminino, tão mocinha desses! Inventou na sua cabeça de que porque eu tenha aberto ás minhas portas de casa para ti, abriria também assim, de uma só vez também, aos meus buracos, minha garganta, minha goela, meus orifícios, só porque precisa provar a si mesmo e à mãe e ao pai, super intendente da marinha, que és macho?! E que não te virarás em pederasta num amanhã sombrio?!... E o que tu sabes da vida rapaz? O quê? Sua bichinha medrosa! Atormentada e aturdida pelo sucesso, pelo bem suceder! E em algum momento, enquanto tomávamos laranjada no café “ La Douce” eu te disse ou deixei brecha do-quê eu especificamente quereria de ti? Ahm?! Diga-me!_Nem suspirei._ Olha menino, se eu fosse uma mulher, sabia que eu tinha te matado esta noite? Poderia ter assassinado você com uma facada no meio do peito ou te serviria outro copo de laranjada, com uma fatia bem gorda de torta de ricota com cobertura de limão e soda cáustica, para você morrer bem devagar! Ou talvez te desse um prato de cereais, já que você tem esta cara indecisa de criança, com mil bolinhas de chumbinho no meio, misturados no meio do leite, para que você implodisse e saísse gritando só de calçolas, no meio da avenida principal, pra que todo mundo soubesse que tu havias comido a uma puta, mas que ela havia comido você de uma só vez, justamente por tratá-la feito a um buraco e nada mais! Porque nem aos buracos eu duvido que tu tenhas coragem de tratar tão mal assim!
E retrucou nervoso.
__Mas eu o tratei tão mal assim?_ eu não quis responder_ E tem algo de venenoso aqui nessa bebida?
Aí sim, explodi do silêncio e quis dizer:
__Primeiro recapitule, eu disse que “se eu fosse mulher”e eu sou homem, olhe bem, você viu e sentiu o meu pau e parece que gostou tanto dele que está nervoso agora, trêmulo, porque ele representa de tal modo, sim! A tua morte e quem sabe o teu renascimento e depois, a tua sorte é que não sou destas fúrias, as que não recrimino, quando são delegadas à maravilha da diferença e você entendeu não é, que estou falando das putas, das meretrizes que com quem certeza você nunca conseguiu sequer uma ereção vacilante, bem contrária a latejante como esta a que te domina agora! Responda!
Era para que ele sentisse bem a noção do que era, que eu queria ser cruel aquela noite, mas eu sou cruel, a vida é cruel, e crueldade não é pecado! Aviso logo aos puritanos que me escutam nesta hora falando de soslaio para que eu não possa ouvir, eu ouço tudo! Tenho ouvido muito bom!

Era preciso fazer silêncio e eu fiz silêncio de algumas poucas horas, enquanto a vela queimava azul, boreal, esperando atitude dele.
__Peço perdão então! Mas não era esta intenção... e o senhor não está errado!
__Senhor não, sou igual, temos quase a mesma idade, treze anos de diferença e quem sabe, você será um pai de família infeliz e remoçado, assim, jovem, como eu também sou! Mas tenho a pele boa, não gosto do sol em excesso e muito menos de torturas emocionais como as tuas, como as que te consomem! Você é bonito, muito bonito e com certeza não conhece carinho, que não seja apenas pelos teus cães, pelas tuas colchas de retalho feitas pela sua avó, por sua empregada velha que lhe leva o leite pela manhazinha à cama, mas é velha demais para que você pudesse pensar em meter! Ela seria com certeza a sua mãe, a que você não teve, e que está mais ocupada em destrinchar colares de pérolas, colhidas do útero de ostras ancestrais, arrancadas por contrabandistas, piratas insolentes e solenes aos quais, tu, reverencias nas tuas desocupadas penetrações de poucos dedos ao próprio cu, nos banheiros dos empregados, perto do celeiro!
__você é doutor psiquiatra?
__Deus me livre desses monstros! Eu não sou nada disso! Sou apenas um sonhador, um menos lamentoso que tu, tão jovem e já tão atormentado. E não estou aqui para te ferir, porque se tivesse, com certeza, tu já terias corrido daqui, creias! Tenha certeza! ... Por quê? Acertei alguma coisa?
Ele revirou os olhos como as atrizes da cinemateca alemã.
__Sim, o senhor, desculpe, você disse tudo o que acontece comigo!
Eu ri, não gargalhei porque seria crueldade demais e eu respeitava a vela que queimava, nem um terço ainda, da minha baba desmantelada e quente de devoção, exercício e parafina.
__É, mas foi apenas sorte! Minha mãe me dizia que eu era sensitivo, cigano, mas na verdade eu não passo de um bom observador e você, meu caro cordeiro assustado, você infelizmente ainda é muito previsível! Mas não se atormente com isso! Tente esquecer tudo isso que eu te disse e me diga, você quer começar tudo de novo? Quer recomeçar?... Ah! mais primeiro quero te fazer uma perguntar salutar, somente a título de proteção e prevenção de problemas para nós dois no futuro, futuro, digo de daqui há pouco!
E porque não era de todo “burrinho”, eu jamais perderia o meu tempo senão houvesse lama para lírio naquela alma, algo de orgulho lho ergueu de leve o queixo em desafio (fazendo questão de organizar bem a frase, incisivo).
__Pode fazer! Faça-a, por favor!
__Você sabe que é um homem? E que está na cama de outro homem? E que esse homem, provavelmente não é o seu pai?
Ele esnobou e sorriu, porque já estava tranqüilo das possibilidades de que eu não fosse um psiquiatra.
Sim!_e tornou a rir, agora ele gargalhava de nervoso._ Sabia, que às vezes você me parece muito engraçado?...
E eu senti uma leve vontade de mandá-lo tomar no cú, mas relevei constante para não estragar meu catecismo.

__Melhor! Melhor assim! Então primeiro ria comigo e dê mais um trago de whisk sem nenhuma piedade. E depois, ligue para a sua mãe e minta para ela, diga que você vai dormir na casa de um de um “amigo” do instituto escolar e amanhã, não pode passar de amanhã! durma de verdade, na casa de um amigo seu da escola e peça para ele te foder com carinho a noite inteira! Está certo?.... Agora olhe bem dentro dos meus olhos, me chame pelo nome bem devagar, quase soletradamente, me pegue pelas mãos e me peça um beijo! Eu te darei o beijo e você... me dará somente aquilo que quiser. E riremos sem pressa de nada, depois comeremos biscoitos com chocolate quente, eu te prometo colocar boas doses de conhaque na tua xícara e quando amanhecer, você tome o seu rumo e só volte aqui, depois de três anos, depois que tiver descoberto por inteiro, o que quer ser e o que quer que seja tu ainda serás sempre um homem. Você poderá até se travestir, me aparecer à porta vestido como a tua mãe, mas volte sabendo que para ser tudo, até mesmo violento, rústico, sagaz, poderoso, qualquer coisa! é preciso ser carinho. Combinados?
O menino estava seduzido, primeiro virou para o telefone pousado ao lado do criado mudo, fez exatamente e sem dor o que eu o havia pedido e depois como num ritual, passo a passo apenas me interrompendo para pedir que não apagasse a vela, porque era “bom olhar para o Cristo albino” e azul, era a sua cor predileta.


O pornógrafo