terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Des sourires, des cigarettes et du lait
Para o rapaz de intrigantes silêncios insinuantes!
Ele surgiu assim como se aparecido no meio da noite, entre as cartas e papéis guardados nos classificados. No meio de uma revista suja, coberta de cheiros e nódoas do sacro das recorrentes visitas. Seu rosto, não era desconhecido, intrigante ter passado tantas vezes os dedos molhados por aquelas páginas e não ter me detido ou me atentado para perceber do seu nome. Talvez, porque no antes, eu não o soubesse do nome, nem tão pouco o conhecesse, se é que eu realmente o havia conhecido, se realmente ele era quem eu estaria a pensar.
__Sim eu o conhecia!
__Sim era ele mesmo de uma época distante atravessado tão diverso e igual!
__Sim... _ a resposta dele_ mas este é o melhor lugar¿ Não quero que ninguém nos apanhe aqui e exatamente em ato como este! Definitivamente eu creio que seria o fim de todos os planos de minha família, de todos os sonhos de minha família, de todos... sim, seria o fim de todos!
E lembro apenas que respondi:
__Mas talvez fosse o teu começo!
Seria ele, o menino que esbarrava comigo todos os dias no horário taciturno da escola dos padres capuchinhos¿!... Eu estava lá desde o momento em que por rebeldia, em ocasião em que a minha mãe, severa e atormentada, me havia encontrado nu, batendo punheta na parte alta de nossa casa, tão branco o corpo de pele corrida da minha ventura, muito mais branco era o leite que espirrava entre as minhas mãos quando ela me surpreendera na hora de gozar.
Exctase e sorriso, ladeando os entornos da minha boca de fruta vermelha, sem nenhuma grande preocupação com os gritos renitentes dela, muito mais apavorada, dizendo insistentemente aos berros que eu estava “possuído por alguma espécie perversa de demônio!” que não era possível que eu continuasse daquela maneira, desobediente e querendo atravessar antes do tempo as auroras que a vida faria tão bem o trabalho de fazer nascer. Brotar, nascer, florescer entre os mastigos frios e inapetentes de sabores daquela casa, realmente seria impossível, razão pela qual não impus força ou rejeição á imposição de ir para o reformatório dos padres nas montanhas da cidade fria. E eu tinha apenas treze anos!
Lembro, que quando cheguei, a primeira visão que tive foi de um vale quieto, sossegadíssimo e morto, n’onde passeavam quase flutuantes os pássaros negros encapuzados, mais a imagem tristonha de meninos petrificadamente mudos e obedientes. E no meio de todos aqueles, quase que chegado por último para completar a fila de garotos para me darem as “boas vindas”, um outro, que chegava arrastado por um dos braços, com olhos de cansaço e fome, de luxúria e desejo iguais aos meus, com os cabelos quase negros, o rosto desarmonizando a proposta de ser “menino” e o que jamais, jamais, jamais sairia de minha cabeça, suas coxas e pernas de ancas levemente avantajadas, suas nádegas calipígias e sua boca pequenina de sorrisos infantis. Sim! No meio de toda aquela severidade e feiura, ele me sorrira, os olhos sorriam, as mãos apertadas suarentas sorriam, o balanço de mar quase mimético me sorria. E era certo, que eu queria sabê-lo mais e muito mais do que a todos aqueles outros que estavam mortos de pé, ali.
Detestar aquela imersão complexa de estudar latim e o canto em francês das liturgias, isso era pouca coisa diante de minha fúria luminosa. Eu era capaz de dissimular, eu era capaz de cantar com soberba e antipatia agradando mesmo assim a todos os professores, enquanto ele ávidamente deposto a me reconhecer desigual, assim como ele, no meio de todos os outros vestidinhos de presteza, como quem sabe fosse, alguém com que ele um dia pudesse também falar. Quem sabe contar de suas desventuras, de seus planos de ser artista na grande Paris, de rodar os caberés e circos das putas, fazer poesia com tinta esporrada das taças brutas de vinho à mesa dos bares de vielas escuras ou quem sabe sorver aflitivamente os grelos de rosas vermelhas de mulheres generosas, como nós dois, também de natureza generosa, quem sabe ser famoso nas fitas do cinematógrafo ou quem sabe fugir para longe do exílio que nos detinha.
Certa vez, quando já passados três meses e quinze dias, correndo pelo corredor, ele trombou o seu ombro esquerdo em mim. E sei que o fez somente para que se fizesse notado e era certo que eu o notara. Recuou na sua contagem acelerada dos passos, dois segundos, não me disse sequer “perdão!” e se foi olhando insistentemente para trás. Estava certo que era um convite, eu sabia ler pessoas.
Desvantagei qualquer possibilidade que fosse de me fazer notado pelos padres e inventando que precisava ir ao toilete, corri desesperadamente contornando os corredores de outros santos, e resfolegante, como um cavalo, escolhi dentre três portas, a do meio, bati e não esperando resposta entrei. Era o quarto dele e eu bem o fazia ideia que fosse, mas como maior parte do tempo, estudava no segundo andar, não tinha certeza. Entrei, ele estava de frente para a janela, as costas para mim, apresentaram surpresa ligeiramente tensa na espinha dorsal, enquanto uma lufada de fumaça sobia escapando nervosa de sua boca.
__Feche a porta! Se não quer que os outros te descubram aqui!
__Quantos anos você tem¿
__Certamente sou mais novo que você. Tenho quinze!
__Pois eu tenho treze, faço quatorze em dezembro, no mês que vem!
Foi quando se virou para mim.
__Não parece! És bem mais alto do que eu... Quer fumar¿
__ Quero. _E eu queria mesmo era estar em companhia dele.
__Então sente aqui, do meu lado. A porta está trancada¿ Não quero que ninguém nos pegue aqui juntos. Nem muito menos quero ser culpado por coisa que eu sei fazer, sem que ninguém me note ou persiga.
__Eu tenho cigarros no meu quarto, fique tranquilo. Não sou nenhuma desavisado que não saiba se defender. __ E me sentei ao lado dele.__Você tem mesmo quinze anos¿
__Menti para você, eu tenho também treze, mas só faço quatorze no ano que vem, em junho. Mas não minto quando digo que não quero que saia daqui o que eu faço.
__Em troca de que eu poderia querer delatar os teus hábitos¿ Já descobri que você é queridinho dos padres. Não é frei Antônio o seu tio¿
__Aquele infeliz é irmão de minha mãe e por causa dele eu estou aqui.
__Pois eu estou aqui porque minha mãe pensa que estou com o demônio de férias no meu corpo! Posso com uma coisa dessas¿
__O que foi que você fez para isso¿
__Quer mesmo saber¿ _ e não esperei a resposta, queria testar até onde ele era tão livre de si mesmo__ Fui apanhado em flagrante chorando leite pela ponta grossa do meu cacete.
__Como assim¿!
__Estava batendo punheta, tocando uma bronha, apertando os mamilos, esticando o próprio saco, me masturbando no sótão da nossa casa. Entendeu¿
Ele ficou de pé e virou-se para mim pela primeira vez desarmando sua coragem e ao mesmo tempo que "diafanava" admiração e espanto. Fez então de si um tempo de silêncio poroso, suspirado, ruidoso pelo cigarro.
__O que foi¿
__Nada.
__Nada¿
__É nada! É que eu nunca me toquei. Pelo menos nunca me toquei até o, até o fim, até chegar a...
__Esporrar¿
__É.
__Quer fazer agora¿
__Eu acho que tenho vergonha.
__Mas você quer fazer¿
__Já disse que acho que tenho vergonha!
__Vergonha de que¿ De não saber¿... Isso é bobagem, eu te ajudaria, faríamos juntos e não me venha com ideias de pecados que eu bem sei que você não acredita nisso!
__Quem foi que te disse que eu não acredito em Deus¿
__Acreditar em Deus não é acreditar em pecado! Eu não disse isso, esses idiotas é que falam isso o tempo todo! Eu não sou igual a eles e sei que você também não o é!
A poesia é capaz de dizer que os olhos brilham, mas a ciência também poderia dizer que isso é possível, porque foram dois faróis de enaltecimento, vigor e beleza que eu via raiar os olhos dele. Acompanhados de sorrisos tão doces e infantis, que eu pau já estava duro, completamente duro dentro das calças de linho asseado.
__Está vendo¿ Só de falar a você sobre isso, eu já fiquei com o meu nervo duro. E sei que você também, que daqui já posso ver alteado o monte quase rasgando a braguilha da tua calça. Vamos medir¿
__Medir o que¿
E não pensando em dar a ele tempo de relutar, coloquei o meu pau para fora.
__Medir, para ver se são parecidos, se têm o mesmo cheiro, o mesmo perfume, a mesma coloração. Veja! Eu não tenho vergonha!
Fiquei de pé para quase rente a ele para que exatamente pudesse causar nele a irrefutável doçura de sentir o meu pau roçando no corpo dele, bati com ponta já muito inflada e grossa em um dos braços dele. Nesta hora o cigarro já tinha chegado ao fim. Ele no entanto, não fazia nada. Mas eu sabia, muito mais por intuição do que por experiência o que fazer para que o que eu queria acontecesse.
Fui eu quem passei a mão sobre o volume com força sentindo que ele pulsava concomitantemente nas plantas da minha mão esquerda.
__Você tem outro cigarro¿
__Tenho. Mas acho que está amassado no meu bolso.
__Deixa que eu pegue! _ e me ajoelhei, solenemente até a altura da cintura dele, encostando um dos lados da face no pau dele quase revelado, para pegar o cigarro no bolso de sua calça, agora muito ajustada no corpo.
__Os fósforos também estão no outro bolso de trás.
Assim virei lentamente o outro lado da face para também esfregá-la no mesmo volume, era possível senti-lo latejar, abracei então com os dois braços sua bunda maravilhosamente farta e juvenil. E levantando-me de uma só vez, acendi o cigarro já deposto a boca e o acendi numa certeira riscada de pólvora e luz crispada.
__Deixa então eu abrir a calça para mostrar o meu pau também a você!
__Faz isso que eu tenho certeza que será bom.
Abriu com relativa dificuldade e cuidado o zíper da própria calça e colocou depois da cueca, um pau deliciosamente torneado e macio, grosso e frugal, perfumado dos cheiros de sexo. Perfume que se fumega entre os dedos as narinas nervosas quando quer ressentir e reviver! Naquela hora eu queria deixar que o olor me virasse em bicho!
__Vamos deitar na cama¿
__E se chegar alguém¿
__Fazemos silêncio e deixamos bater até que pensem que não tem ninguém! Você quer ou não quer¿ _senti que fui rigoroso.
__Sim... _ a resposta dele_ mas este é o melhor lugar¿ Não quero que ninguém nos apanhe aqui e exatamente em ato como este! Definitivamente eu creio que seria o fim de todos os planos de minha família, de todos os sonhos de minha família, de todos... sim, seria o fim de todos!
E sabendo ali que começávamos uma prática recorrente, calmamente e quase sem demonstrar fazer questão eu disse:
__Mas talvez fosse o teu começo!
De uma só vez, sem que eu precisasse dizer mais nada! Ele tirou de mim o cigarro de entre os dedos, tragou três profundas vezes e arrancou de uma só vez todas as roupas que restavam no corpo. Me pediu que fizesse também o mesmo e obtemperou:
__Então, quero que seja que seja feito de tudo! Como se fazem nos grandes encontros. Quero que você me ensine o que sabe e eu te ensinarei o que sei fazer também!
Tomei de novo o cigarro para entre os meus dedos e traguei profundo.
__Posso passar a fumaça para a sua boca¿
__Faça isso! E enquanto você toca o meu eu toco no seu. Está certo¿
__Está maravilhoso! _Assim neste compasso eu mesmo tomei de sua mão até o meu sexo rijo, a mão quente, macia, beijei sua boca, porque já não existia mais fumaça no interior da minha, enquanto tocava e apertava o seu suntuosíssimo pau, que logo fiz questão de descer beijando todo o peito e barriga e umbigos, cheirando como um bicho todos os pêlos mais anelados da sua virilha liberta até que eu o pudesse chupar, com a mesma fúria que a boca que o beijava em alternados tempos. Mordi,lambi, chupei, todos os seus buracos, esfreguei a minha primeira vegetação de pequenos fios de barba na sua maravilhosa bunda, engoli novamente o seu sexo. E sem nem precisar pedir que ele fizesse igual, porque sexo não se ensina, se lembra, nos tivemos durante quase duas horas, sem que nem um padre desse por nossa falta o batesse a porta.
Tudo isso aconteceu, da forma mas calma e secreta durante o cinco anos que fiquei ali, até que eu completasse dezoito anos e fosse embora. Lembro que saí do reformatório antes dele. E fiquei sabendo que ele viajou para Portugal com os pais, para estudar teatro na companhia de uma tal Madame Maria da Mouraria. E hoje, o encontrei nas páginas desse classificado torto e velho.
O pornógrafo
sábado, 13 de outubro de 2012
Peste sucrée
Que o sol lacrimeje sua baba na aventura doce das flores, mele abusado entre os nevoeiros lentos, sonsas ilusões de um verniz audacioso e indecente, como forte, alteado e crescente é o nascer dos dias e das horas no centro de nossas barrigas!
O Pornógrafo
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Bla des désirs lumineux
Por conta de todo desejo que me corre a vida trespassada em misericórdia, jamais me deixaria sem o dom de volver ao que me circunscreve, passo a passo das carnes e matérias de espírito de que todo sou feito. E creia, que mesmo em face de toda circunspecção, eu não deixaria de dizer ou me fazer nu, declarado, nos contornos da minha face torta, do meu queixo indecente, do meu olhar amarelo, filigranado, do que por dentro se escoa, se ecoa nos vasos mais porosos de minha dilatada usura. Também, calma, a extensão enervada de concisos e atuantes pulsos, na balsa inteira de minha cintura. Na bacia dos meus quadris, pêlos exasperam-se puxados com força, pelas carnes do meu sexo rijo e intumescido de concórdias, diretamente conjugados a tua presença, ao que vem antes do nome, ao teu enevoado e contrito pouso de matérias e quânticas asas, quando sublime, me chegaste aqui. E eu não teria medo, já que o medo, diante de ti, seria espelho diante dos recuos, que me desarvoram muito mais a motricidade do querer e me instigam mais ainda ao desejo de estar, face a face, olho a olho, cara a cara, dessa fímbria doce e jaculosa que um dia, nos compusera homens; jamais, o conceito ortodoxo e atávico de tantos outros homens, familiares, meliantes ou doutores, me fariam recuar diante do que comove e move os meus olhos, a estrela direta e profícua dos sentidos do meu coração batizado por tantos, como anárquico, desesperado, enlouquecido, vermelho e cru. Eu, seria apenas o homem, simples, divisando os signos do teu mistério, sedento, esfomeado, enxovalhado, tresmalhado como ovelha desgarrada para te encontrar, sem nenhuma culpa, sem nenhuma dor, sem nenhuma gosma ensandecida na garganta que atropelasse à hora do dizer, já que meus dedos passeariam pelos teus cabelos, livres, como se libras dessa linguagem calada e de retinas maiores pudessem as plantas dessas mãos tão intencionadas de fúria e decanto, entender passo a passo dos teus desenhos mais ínfimos, mais íntimos, mais secretos, teus buracos, tuas narinas, tua boca, as dobras de tuas coxas grossas, torneadas para a dança nova que teríamos no palco oloroso de alguma cama perfumada. Eu, fumarento, vaporoso e ao mesmo tempo encarnado, de ti, engoliria cada cheiro, cada fragrância, cada calor escondido nas tuas dobras mais juvenis, n’onde a pele se esconde quase virgem! Porque algo pouco tocada, algo pouco lambida, alvo e pouco babada pela boca de suntuosa gruta, pela fruta carnuda de todos os meus pomos e lábios vermelhos. Eu te entenderia em mim, te atenderia em mim, nos meus braços, no meu peito o teu cansaço, eu faria resolvido, ainda que por poucos minutos, algumas horas, como transfusão de energias, nos sopros, nas mordidas, nos carinhos, nos cantares, nos líquidos suarentos, nos beijos, na forma incendiada de te receber, deitando o teu corpo, abençoando “Pietá,” em meu colo de agora homem, mais por ti e contigo, inteiramente igual e menino! E soariam sinos, no alto de nossas cabeças, na periferia inteira desses nossos quartos de usufruto e fastio! E sem a pressa de dar nomes ao que faríamos, ao que teríamos por hora enviesada, numa necessidade de estrada longa, num pacto sublime, para que não fosse somente paixão e nunca houvesse de morrer. Calaríamos, tentando retardar as horas, para escutar os caminhos abertos, tocando ferrenhamente um o corpo do outro, enquanto aspirássemos como duas dragas de boca semi-abertas, de íris completamente ampliadas, um a presença espargida do outro, porque o mundo seria o nosso mundo, seria a particularíssima língua a que sempre nos volvemos e devolvemos num segundo de sempre nossos encontros! E somente nessas terras eu e você, conseguimos entender que palavras idiomáticas são estas que conseguimos falar tão bem, sem que precisemos deixar de ser por um só segundo, a nós mesmos! Sem que haja obrigação alguma ou ordem infeliz de fora, pior ainda de dentro, que nos intercepte a vontade, a amizade, a compreensão e o tamanho de nossos corajosos pequeninos corpos, nunca ermos, diante de desse abismo que é sentir!
Eu sentiria por ti um emaranhado de coisas multiplicadas no desassossego das solidões. Eu, que sou de algum modo e ordem, cigano, que passeio pelo mundo e não me calo diante das indignações, brigaria e te abrigaria a mais profunda ponta aguda das minhas hastes, nas tuas cavernas mais secretas! E quando desejasse em ti estar penetrado, “alumbradamente” abraçado por tuas carnes e envolto por teus calores de dentro, desejaria mesmo e fatídico, era tocar teu espírito, deixando ao corpo o valor secundário de me fazer estar mais dentro dos teus hemisférios. E salivaria por horas, as águas tontas de desejo no meu corpo, para dentro do teu corpo. E te diria palavras sem sequer abrir a boca, porque saberia de ti a capacidade imensa de também me dizer disso tudo! Escreveria com a tinta desse verniz que baba a ponta doce do meu pau, por todo o teu corpo, as poesias mais lindas e vorazes, as palavras mais cativantes e libertas de desejo, a minha língua dançaria luminosa e cortês no interior da sua boca com um plâncton luminoso, sentindo o frio do caucásio dos teus dentes, o cálcio morno dessas pérolas plantadas na tua mandíbula, espetacularmente perversa e sábia das mordidas certas, das sucções mais profundas, dos intervalos mais cheios de tempo e prazer peremptório!
E nesse ostensório sacrossanto e pagão de muitas luzes e sóis, que são os olhos sentidos quando luz e brilho, eu te abrasaria mergulhando antropofagicamente adentro e para sempre me misturaria na corrente boa do teu sangue que bombeia e faz encher as balsas da tua ereção, eu me faria uma canção, doce, para as horas do teu vogar, do teu vagar, nas tuas trilhas de desassossego, eu te ampararia nos meus braços com a força dos meus músculos frágeis, mas cheios de calor. E diante de mim, quando tu tivesses de pé, arrancaria a roupa, como se a primeira vez despido, oferecendo cada penugem das minhas estruturas, para depois enxergar como se infante diante da descoberta mais genuína de um pássaro diante do sol, a tua estrutura toda de arrimo e doçura, de rigor e feitura, assistindo a tua nudez, para beijar, fremir e gemer, sussurrando a temperatura quente toda da minha boca, meu interior, desde os teus pés, a tua panturrilha, teus joelhos, as tuas pernas todas, a maravilha do seu sexo perfumado, teus colhões, tuas nádegas abraçaria, enquanto do meu tronco os teus princípios sentissem o meu sexo quente, arrastando-se como se numa via pascal, até que eu seguisse ao teu umbigo, tua barriga, todo o teu tronco, teus mamilos chuparia, sorveria, com ósculos molhados e cuidados, cheios do intenso fogo que me governa desde o princípio, desde a gênese de minha aparição, saudaria também com alegria teus braços, até encontrar com força o encaixe sazonal de nossas mãos, deitando primeiro a cabeça pendida nos teus ombros, para na tua cabeça alcançar tua altura, tua sanidade e loucura e depois me fazer em ti como um só beijo, uno, lagrimal de solfejos e agridoces águas bebidas na caldeira de tua boca. Teu nariz, ponte agudando os desejos te fuçar como se fosse bicho, a luz clara e sombreada de nossos intervalos no abraço, agora mais desnudo, que eu sentiria profundo, até que por fim, como se do meus precipícios e inteiriço de minhas entranhas, fecharia tuas mãos no meu sexo, assim como também com minhas plantas quiromânticas,contornaria tão bem o teu sexo, até senti-lo pulsar junto com o meu! E assim, ressurgindo natividade, deixaria, de verdade, que uma cascata do leite mais poroso e grosso fosse chorada até o alto de nossas aréolas, pela ponta mais que deposta de nossas vergas, pulsantes, acumuladas, felizes desse emaranhado de sentidos para depois dizer, colado, insofismavelmente lambuzado, acometido e torto desses prazeres que sinto ainda agora, quando aqui, descarnado a te fazer em mim, palavras sussurradas num sem fim, nos lóbulos das tuas orelhas eu diria, na concha confusa dos teus ouvidos, que por tudo eu friso, que por tudo eu riso, eu choro, eu vivo estarei aqui para este encontro, para te saber! E porque eu gosto do teu gosto, da nossa infinita e etérea ponte que se fez até aqui, que eu me farei fecundo e por demais feliz, jucundo, atrevido, cavalo de crinas soltas e livres, ainda, voarei até o teu sorrir.
O Pornógrafo
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Le paradis des oiseaux muets

Abrir a tua boca, puxar de dentro do curral do dentes a língua, agarrar a língua, esticar a língua de dentro para fora do interior do céu do palato, tentando violentamente descobrir com as ranhuras dos dedos, com o macio das digitais, as palavras que guardadas, perdidas, encruam ou viram quem sabe dissabores no inferno dessas indigestões. Condenar mais a tua boca do que já condenas; isso eu não faria! Eu não fui nascido e criado homem desses feitos, dessas falsas misericórdias pedidas ao reverso das ações fugazes, adestradas.
Passeias pelo mundo, julgando que do mundo as vistas mais atentas nunca te virão, nunca te verão, nunca te enxergarão deflagrando os nós da tua garganta visitada, quando de joelhos, golfas, até o sumo das gosmas mais interiores, numa busca fascinante e dormente de prazeres vorazes, antropofagicamente permitidos, na hora bebida das correntes de álcool, em que manejas o talo das flores mais duras, intumescidas, até os limites da garganta, neste flagelo oral de penetrações nos buracos da fala, em que somente calas e ages, subindo como ondas para afogado até a superfície. Porém marginal, achando que o teto te encobre de Deus, quando ele participa da tua vontade, te pedindo exatamente fala e atenção nessas horas de visitação das cavernas do além amigdalas. Calas a boca, cobres a boca, rangendo os dentes por rancor a estas fendas. E o mundo te grita, te grita, te grita insistentemente nos ouvidos, o pó feito de silêncio e mar, de ruídos e roídos elaborados planos que nunca se somam carne de alma e em ti, somente cansaço, luta injusta, inócua? O que de ti por esta tanta preservação, a pele limpa, os dentes limpos, o asseio dos pêlos arrumados, a veste insinuando decisão e por dentro, a ordem mais profícua e proliferada de danos pavorosamente mais crescentes e enganosos.
Cansar de ti...
Cansar de ti será quem sabe deixar que tu morras engasgado nas pirocas profiláticas que chupas, para depois cuspires, porque nelas faltava a ponta consagrada da alma, que te coloriria de joelhos em benção rendida, de atenção e beleza, enquanto o simples dorme desassossegado dentro das tuas caixas de vocais, condenadas palavras nunca nascidas, nunca nem sequer assumidas no papel.
E o fel que destilas nas tuas infelizes correrias para o quarto dos protegidos, misturas nas comidas, nas palavras do trabalho, nos tediosos compromissos de falar a quem te solicita em hora alumbrada de boa subsistência social. Na aventura performática do teu pau, quando tens saudades apenas, das mãos que tocadas, que já te traziam a beleza do sexo, que uma hora descoberto jamais, será esquecido, ainda que teus gritos mudos e tua exigência!
Temperança para as tuas pernas, para o teu estômago o prazer desigual dos porcos, eu amo os porcos diante da tua anestesiada concepção de ingestão!
Dobrada a palavra, desvirada e rasgada no ar das andorinhas, quem sabe perfumes mais doces não pousariam nas minhas narinas pedindo entrança, quem sabe não dança teu corpo solto no ar novamente, no passeio de caminhos sorridentes até chegar a mim, até o meu abraço, até o meu peito, até o meu jeito mudando o tom, como o tempo jungindo cores e flores nas horas próprias e particulares do dia? Boreal, eu te diria nada além de apertar tuas carnes nas esperanças maiores do espírito. Sazonal, me fumegaria, poro a poro, das listras corridas de pele do teu pescoço, da tua nuca. E arqueada a boca numa concha profundamente patética e ancestral, mamaria os teus lábios como se novamente, primeiro. Naturalmente infante e magistral, sorveria a tua baba, a tua boca, o choque lancinante e elétrico dos teus dentes e perene, me deixaria todo envolver na compreensão, daquilo que é dito apenas nas impermanentes horas da vida. Porque mesmo de dentes trincados, de nada me valeria o segrego, pois meus olhos sempre gritam!
Dizer que não dizer é vantagem, para um homem que flutua, que dança, que passeia pelo escuro da casa e não tem medo de trombar com os móveis norteados ao bem do horizonte, seria redundante. Talvez fosse alguma forma circunscrita de apenas respeitar a tua concepção de silêncio, porque eu, não tenho medo de perder a voz porque me restaria a carranca. Eu ouço as paredes, eu ouço os objetos todos da casa e com eles converso sem que ao menos precise me abraçar à loucura branca dos normais. Eu chego a casa e tudo me fala, tudo me cala na hora de gritar para que possa me ouvir. Existe diálogo efetivo entre nós, nos espaços e vãos dessa convivência, dessa conveniência de estarmos juntos e corroborados em segredo, em respeito e amplidão dos nossos quereres, nossos atos, nossos seres tão amplamente dispersos e contritos, numa comunhão abstrata e constante, quando queremos saber um do outro nessa solidão. Nenhum menino que me tenha arrastado os pés nos carpetes da casa, fora imune das elegias e alegrias soturnas dessa construção. A casa me compreende para eu que eu possa nela morar.
Lembro amplamente de cada rosto que por ela adentrou, cada corpo adentrado também por mim, com as expansivas noções dessa compreensão que tenho toda do meu corpo. Já esporrei nas paredes, abrindo os braços e colando os mamilos na tinta descascada, para que ela pudesse me entender, aceitando, generosa a doação do perfume perpetrado dessas tantas companhias e que têm sozinhas, o seu destino. E isso me comove! Isso me faz certo de que estou pleno de silêncio, vozerio e solidão. Não tenho medo da solidão, ela é quem me faz saber ter calma, para enxergar que parte do corpo alheio precisa ser tocada, que fenda precisa ser lambida, que orifícios mornos precisam ser molhados, que suspensão necessita altear de mim mesmo, para que o peso dos meus ossos, nunca sufoque as carnes, as minhas carnes e as carnes que animam o corpo que vem.
Vou por aí nesse trem de idiossincrasias e sofismadas imagens, vultos nevoentos do teu tempo, para dizer que quando te encontrei, nada mais em mim desejava o teu medo e por isso talvez, o degelo desse teu insuportável cansaço de tentar fugir ao que talvez, nem seja mais nosso, nem seja mais para tanto. Os canais secaram as lágrimas nas bordas dos olhos, a garganta secou, dando lucidez aos teus passos trêmulos e eu, não me emocionei com mais nada. Os teus olhos estranhamente vermelhos de um choro que eu não via, me revoltavam muito mais fazendo do meu corpo porta batida, na tua cara, ferida dos gessos e carmins desse século, do que a compreensão batismal de paternidades sutis por mim outrora ensaiadas. Eu não seria teu pai, eu nunca tive a pretensão de ser teu pai, mesmo entendendo as imbecis projeções a que somos sujeitados, segundo a falida concepção freudiana. Éramos apenas dois, dois homens jogados ao sulco espremido dessa laranja seca, que apenas conservava no fim dessas usuras, a tontura do pêndulo ao chão, a secura da razão das pedras tentando brilhar seus lindos olhos de cor após as pancadas. E nisso não haveria amor?... Não haveria quem sabe a chance de descobertas? E quanto será que sofre o pássaro na muda a espera das novas penas? Se era de sofrimento e paixão o teu medo, diante de minha cara seca, era melhor que volvêssemos as nossas casas e depois de nada forçar o tempo dos ponteiros eflúvios, também não exigir nada do corpo, lancinando o mesmo peso de carne à cama, para esperar, quem sabe, que algum nervo contrito, nos dissesse tão descomprometidamente por onde deveríamos começar a nossa palavração, suspiro primeiro da alma. Ou deixar apenas morrer, na migração fantasiosa e ridícula de imaginados pássaros voando para um céu sem fim, alguma coisa que não fosse coisa, que não tivesse nenhuma obrigação ser ruído e sim apenas silêncio.
O Pornógrafo
sexta-feira, 9 de março de 2012
La fête de la fin du monde

Por onde há ardor e cansaço, atento os meus braços a chegada deste afago que seja puro vento e companhia. D’onde me viste de longe, elegia. Visão prurida de impedimentos e tormentosas fantasias para as quais batizaste por teu nome, teu rigor, tua destreza diante do espelho, tua esculpida tabela de números e resultados, costela a costela, braço a braço, perna a perna, orelha a orelha e surdez. Emudecido, nem sempre te impedes umedecido. Nem sempre não floreiam teus verbos e dissabores no cansaço do que nem ainda começaste. Embevecido de cólera, cerveja e medo, enquanto eu sou vinho e decantado, enquanto eu sou vivo e depravado, tu morres empedernido e contrito, cada vez mais encolhido dentro. Não há mais lugar para palavra, só existe cansaço, só existe a ausência. Só existe o verão, a primavera, o outono, o inverno, o verão, a primavera, o outono, o verão, inverno... não existe uma estação n’onde nos encontremos, não existe presente guardado com carinho, não existe carinho, só existe cansaço. Só existe o espaço esperando para habitar. E dos teus hábitos, trejeitos frágeis e desavisados de um menino que se julga em pleno vigor, quando nem cortado ao meio, ainda, o tempo de vida, somente ferida escondida com arrimo e sabedoria?, por uma camada bem aplicada do pó dos rostos das moças de trabalho fiel. E tu és fiel, mas em ti não há trabalho, não há nem sequer, agora, um pequeno tecido roto que seja dos grelos dessas moças, tão mamados, tão chupados, tão exasperados por bigodes fedorentos, fumarentos, esfomeados, quando por elas e soberanamente delas, o dom divino de elevar a fronte e divisar, na beleza das lâmpadas a maravilha dos lustres quebrados, enquanto ainda, do alto de seus poderes ancestrais, jamais pudores clericais, são capazes de gozar a boca e o beiço todo do infeliz que as pensar consumir. Quando do alto de suas almas e espíritos, extasiando e ungindo, apenas para um pequeno deus, nas lembranças dos filhos, dos trilhos, das correrias trespassadas do pretérito enfermiço de suas infâncias intocadas. E estar ali, oferecendo a boca e a fenda dessas rosas de olores perigosos, jamais as distanciariam sequer, de enxergarem amor. É porque tu temes tanto de amor, que tudo em ti é capaz de simular absolutamente nada! Teus joelhos te condenam, tuas mãos suarentas, teus olhos crispando entorno das pupilas brilhos mortos te condenam, vermelhos de chorar um choro futuro, que só desabará da garganta quando estiveres trancado e trincado entre as pernas, nos quatro cantos do teu quarto ou banheiro e escondido! E redargüido, e falsamente exposto no teu troninho de verdades absolutamente corajosas, porque apregoam tuas decisões. Tu és rapaz resoluto, e por luto, a falta de orgasmos supostos, de tua própria mãe, tu também hás de permanecer incólume, irrestrito, inconsumível, edificado, adestrado( não tivesses dos animais visão inferior),consternado e feliz, feliz, feliz, nos teus passeios pelas praças, todo vestidinho de modas e cabelos arrumados ao bem do século e da década ocupada pelos sãos.
Eu pedirei uma brisa ao tempo, para que tu não sufoques, não engasgues, não tenhas esmagados os nós da garganta, já que eu sei, que não és de palavra e eu, sou lufada, sou gozo contínuo, hemorragia para o teu pinga- pinga controlador de sangue. Controle então o rubor da tua face, controle os teus intestinais solfejos de loucura, controle as tuas ereções por dentro das tuas calças ajustadas, o teu cabelo que nunca se arruma porque o vento sopra livre e tão livre, que teu grito jamais o coibiria! Jamais tua tempestadezinha de merda, seria capaz de desvantajar a soltura do tempo! Controle o tempo, diga a ele, grite ordens ao tempo e diga a esta dor, que, inalterada e intacta, provavelmente te comerá as melhores horas da vida, até a tua velhice, numa angústia profunda e sem dentes. Sem o caucásio bom das tuas presas curtas de morder, sem as tuas contemplativas vistas tão apaixonantes. Porque de ti, sempre amei a tua desobediência a si mesmo, os teus planos falidos, as tuas sucessivas tentativas de ser, quando existindo perifericamente, nem te davas contas, das maravilhas que és, sem o teu tanto “domínio”, ponderado e enviesado e ajustado em sacramento. E em detrimento destas ranhuras ancestrais, que me insistem em conjurar e conjugar ao teu tempo, num espaço comum de quem tem ouvidos aos mortos, que gritam insistentemente que não existem verdades que sejam jamais escondidas, quando nasceram para passearem nuas, no chão da pele aturdida, exercida, ferida, plenilúnia e clara, como viela de porosos embates e paixões que nos fizeram descer ao mundo, tivesse eu esta noção cristã de lateralidades!
Sei de Deus nos braços dos outros, nos pêlos exasperados, nas feridas cauterizando cicatrização, nas horas sem contagem de um tempo manso, macio e motriz. Sei do que é desenhado com o giz divino, desse mesmo deus, apenas do contorno intumescido dos teus pequeninos mamilos, que ainda lembro, fui o primeiro a chupar, a lamber, procurar o bico, como se eu fora criança grande devassadora, o primeiro gole de bebida agridoce e cheia de veneno e álcool profundos, o primeiro baque entre as carnes das tuas coxas, o primeiro desaviso mais violento da planta certa dos teus pés, como se ainda bramindo nas partes do corpo as fúrias do mar, quando saímos correndo para o chão das areias agora fofas. E creia! Não desejo para ti, nada que não seja de desejo e comunhão, não tenho a pretensão de ser risco para os teus planos, para tua obra, para o teu sucesso, para a tua vida organizada, escalonada pelo toco do teu lápis sempre, cuidadosamente, laminado até o agudo da ponta, para que te reste sempre até o fim a promessa da palavra na hora por ti, esculpida na temperança. Não devolvo rancor, estupor, maldição ou desesperança, muito menos que te morra a criança, mas que também jamais te deixe de nascer o velho e toda a sua dignidade. Foi porque andei até aqui, que sei do que falo e exatamente porque lograste sozinho, o que é só teu, que nesta hora, eu, pornograficamente insano, anárquico, nevrálgico e caligrafado, me permito no que é palavra para trágico e fabuloso, não te pretender voltar a dizer. E que porque meu corpo tão bem tem ouvidos, conchas acústicas, bocetas sonoras e úteros profundos, eu calcifique por toda e qualquer boa necessidade de regenerada perquirição, degenerada e esporeada dor de seguir mundo e chão, jamais trotar como cavalo em fuga, seguir os caminhos infinitos do mundo, te deixando a hora e a própria cara estampada no espelho, o teu próprio julgamento que já o são por demais sumarentos, para que os possa repetir ou fazer coro. Seja realmente feliz, mas não seja escravo das pracinhas.
O Pornógrafo
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Une fête de viande tiède à Blanchot

Atravesso a porta, miro o espelho e digo: __Escarnece meu delírio!
Junge minhas dores e unge minhas feridas com a tua saliva!
Por favor!
...
Veludo roxo, de puta, de monge, de palhaço, de meretrício e de partes. Sagradas, sangradas, bandidas, banidas, marginais como um jato de boa água branca, cuspe e sangue, de dentro do corpo, mangue. Mangando de todos nós, mistérios jamais alcançados, sem sequer nosso corpo visitado, sentido, inspirado, aspirado, chamuscado, fuçado, cheirado! E de nós boa fúria e pestilenta piedade!
Festa aos marginais, as estrelas tontas do céu, as vertigens da abóbada da boca, quando vociferado, rosnado, cuspido ou babado teus nomes, tuas múltiplas e “ventanosas” formas de ser. Ilusoriamente se formando, quando tudo que mais desejamos, de desejo bicho, desejo esguicho, de libido, é somente a mistura no líquido bom que nos consome, regenera, mata a sede, a fome e tantas outras vontades não codificadas no nome.
Felpudo recosto da cadeira de deitar os pés até o chão desarrumado dos tapetes, abrindo com a fúria de quem rasga a braguilha da própria calça e devora com os olhos das plantas das mãos, o bolo de carne alongado no chão da virilha de homem, que na hora exasperada, eu sei, que sou para mim mesmo.
Deixar que nada a volta me atrapalhe, nem os ruídos dos pássaros, nem a loucura dos cães, excitados e libertos como eu em comunhão, pelas matas todas do envolta de casa e assim, num respiro profundo, profuso, desassossegado, tatear repetidas vezes a mesma oração nervosa, da repetição bendita do teu nome, que perdido na essência do que precede, não precisa da letra “fonada”, que sai pela fenda da garganta e esvoaça a pessoa. Eu desejo a pessoa, eu rumino a pessoa, eu esfrego a pessoa nos vãos torneados das minhas coxas, doridas, de tanto andar. Músculos pelas ruas, com pressa de encontrar outras gentes e vibrando pelo insucesso, para lograr a chegada quase arrombada da própria porta de casa e por fim constatar que a tua falta é o que mais alimenta, é o que mais me consome. E todo, homem?, espichando os dedos até o fim dos limites na mesma cadeira, perfurando com as pontas dos dedos os buracos da boca, das narinas da face, dos ouvidos das dobras da costela, das bocas entreabertas sedentas de nervo e razão, concomitando e rangendo loucura entre os dentes, da língua aguando e cuspindo a ilusão das primeiras secreções.
E eis que ainda, querendo não divisar o final dessa procela, vou me dando às delícias e mais dedicadas funções de me fazer fractal e sacrário, dividido e perecido parte a parte corroborada, bombeando com as plantas macias e profundamente quiromânticas, os enervados altos pomos de veias dos próprios contornos do meu sexo; admirando dele a cabeça, a fenda, o olor, o rosáceo, os pêlos, o conforto, os prenúncios de arqueada canção com a mente, os meus grãos, meus testículos, sementes, querendo do alto da testa a passagem pelo coração até a conclusão das veredas que, ele, meu pau, todo cardíaco, enfarta, enfeita, despende, ensangüenta, sedenta, amamenta, compensa, rasga, deleita, esporrando pensamento e cansaço, num pasto imenso e vasto de floradas conspirações no meu próprio peito.
Eu gozo até a altura do meu peito e lambendo lentamente do mamilo a minha própria gosma, eu descubro que o meu sexo nunca esteve disperso do meu coração.
O Pornógrafo
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Délicatesse

Aturdido, eu sei que vi o garoto descendo pela janela do próprio quarto, não suportando mais nada do que existia dentro do quarto, dentro da casa, dentro do pardieiro n’onde vivia com o pai e com a mãe. Isso eu pensei quando passava de bonde perto daquele lugar. Mas que rapidamente saltei no próximo ponto, próxima estrada, esquina com a mansão vermelha que contrastava inteira com as casas daquele bairro, daquele barrio de marginais, daquele lugar. Eu, que sempre fui dominado pela vontade de vagar, vagabundo, buscava vagabundos, amava os vagabundos, os moribundos, também como amava os bêbados e os certinhos, os fugitivos de casa, não me trespassariam os olhos sem curiosa visão de poesia, sem vontade de saber, de ganhar. Voltei duas estradas atrás e ainda tive tempo de topar de frente com a cara lavada de sangue do rapaz. Era sangue mesmo, não era tinta vermelha de festim ou fantasia. Ele tentou me desviar, mas indolente eu, muito mais do que ele, não deixei que ele atravessasse o meu caminho, tomando cuidado para que não pisoteasse as minhas botas lustradas, agora filigranadas por leve manta de poeira de estradas. Ele bufou feito um touro pequenino, um animal acuado é mais feroz quando tem seu passo impedido, e eu o impedi, até que ele estourasse. Estourou numa palavra suja e eu ri. Não dei gargalhada que o constrangesse, apenas sorri para que ele sentisse, sem ter a pretensão ensaiada de para que ele, o meu melhor sorriso, nascido eu confesso, de uma compaixão e misturada toda, num boníssimo e incômodo reconhecimento de mim. E naquela hora eu o desejei.
__Está rindo da minha cara?_resfolega ainda possesso cuspindo a saliva de sua boca nervosa.__Se não vai fazer nada, então saia da minha frente, imbecil!
__Imbecil é você, que não percebe que estou te sorrindo!__Era de toda esta compostura de bilionésimos segundos que meu composto era todo feito.
__Está me sorrindo porque então? Guarde teus dentes de puro branco e caucásio_ele sábia falar!_ para se arreganhar a outro puto, porque eu não estou para brincadeiras!
__Reparou nos meus dentes é? Gostou da arcada do meu sorriso, então?
__Gosto de quebrá-los também se for preciso!
__Tente! Faça o mesmo que você acabou de fazer em casa, depois fuja para que eu não chame a polícia, mas ah! Melhor, não fuja novamente, não corra novamente, porque eu não chamo polícia, eu odeio polícia! Eu mesmo quebro a tua cara até você chorar ou pedir mais!
Bastou de pouco para que eu pudesse entender que os olhos dele se enchiam. Era de um mar francês que eu lembrava, dos mares da costa, meio cinzas, eram muito longe azuis, mas diafanamente cinzentos, o menino era de rara beleza maltratada.
Recuei meu passo, estratégico, nunca senhor absoluto de mim e ele me chamou para que voltasse.
__Me desculpe!
__Não me peça, quem disse que você precisa de perdão? Eu disse alguma coisa? Só não te deixei passar dragando teu caminho e te sorri, porque te achei bonito o estado, o sorriso.
__Mas eu não sorri, eu nem mostrei um dente da boca, o senhor me viu machucado.
__Mas sorriu liberdade quando pulou da janela e resfolegava os planos de para onde iria agora, depois que mandou os pais irem tomar no cú.
O peito dele suspirou tão alto feito o mesmo mar francês.
__Então, por favor, me leve para tomar alguma coisa, que o dinheiro que eu tenho é pouco e eu não sei para onde, ainda, posso ir.
Dolente e levemente arqueado eu via na tontura das palavras dele, um pedido de prazer, que viesse depois do socorro. E para quem quer me julgar, julgue, não sou de devorar desesperados. Devolvida a consciência do que sofre, o pedido quase sempre, parte deles, em si mesmos. E não, eu não sou irresistível, irresistível é a vida quando se apresenta nua, sem modelos ou condenações.
__Levo para onde quiser, mas antes limpe o sangue dessa ferida que desce da tua sobrancelha. Não sou assistente social, não sou acolhedor de menores....
__Eu não sou menor!
__Eu sei, deixa eu terminar? ... E só estou aqui parado diante de você, porque me chamou atenção! Mas também não estou aqui dizendo que você é igual a mim.
__Eu sou igual a você! Qual a diferença, porque estou sujo e espancado? Porque você tem dinheiro para me pagar um conhaque, para comer tuas putas e...
__Putos. Eu gosto do que me comover!
__Eu te comovo?
Não respondi e joguei como uma faca circense sobre o peito dele o meu lenço de algodão, enquanto ele o tomava com a destreza atenta dos que estão presentes e vívidos no aqui.
Resolvi que não era melhor estar passeando com ele naquele arredor, que era por cuidado maior, parar um carro e pedir que nos conduzisse a um lugar. Escolhi um hotel, porque ele precisava de um banho, de comida, ele precisava falar e quem sabe gritar, urrar seus gritos em lugar de descrição.
Paguei o hotel mais caro, pedi para que trouxessem roupas limpas e o deixei ir ao banho, sem ter vontade nenhuma de vê-lo despido, de admirar as supostas belezas do seu corpo, o interesse nem sempre nasce desses facilitadores em mim. Ele demorou no banho, fez o vapor invadir o quarto porque, não sendo mocinho de casa “ensaiada”, fez questão de deixar a porta aberta, caso eu quisesse entrar e começar algo que só começaria, se eu enxergasse autonomia depois de toda aquela minha vantajada e suspeitosa delicadeza.
Quem me saía do banho era outro rapaz, do que eu já havia visto dentro do mesmo rapaz, mais calmo, embora o cenho fechado ainda deflagrasse as torturas de que ainda era vitima dentro de si, dentro dos recônditos quartos sempre resguardados de sua doçura. Sim! Porque havia doçura nos traços de sua beleza, uma forte cara de quase homem, agora vestido nos pijamas do hotel, um ferimento que não parecia grande coisa n’altura do que lhe compunha a paisagem dos olhos e uma fragrância de macho, recém saída da adolescência, atravessado pelas flores do sabonete floral do quarto de banhos, nem tão bem decorado assim.
__Você quer comer alguma coisa?
__O que o senhor quiser que eu coma, eu como!
Nem respondi! Silenciei simulando desentendimento para a sua falta de cuidado, na tentativa de se mostrar solícito, embora como resultado, vulgaridade e desserviço.
__Desculpe.
__Por quê?
__Eu estou me adiantando diante dos teus gostos.
__Está sim, mas meu gosto não é nunca foi parado. Você vive disso?
__De quê?
__De oferecer teu corpo em troca de cuidados na hora do desespero?
__Não senhor.
__Não me chame de senhor! Não há necessidade, já disse que não sou assistente soci.....
__Eu já sei, eu já sei, perdão!... Antes de comer alguma coisa eu posso tomar um conhaque? Minha ferida está doendo_ se aproximou bem rente a mim_ e dizem que o álcool anestesia as dores dos ferimentos.
__Não se preocupe, eu vou deixar um dinheiro para que você passe numa farmácia e compre algumas coisas para tratar disso aí!
Durante alguns segundos, isso me bastava, eu tive a nítida sensação de saber que eu era capaz de amar àquele rapaz e eu não evitaria, porque dada a minha natureza nada platônica, também contornos de afeto nas silhuetas dele. Chamei pelo telefone o serviço de quarto e pedi para que eles me trouxessem uma garrafa de bom conhaque e algo para comer, que não consigo lembrar agora, porque eu não disse, mas isto me aconteceu já faz muito tempo, e no dia de hoje eu precisava dizer. Contar apenas.
Seu nome, não revelarei, porque não o repito nem para mim, desde o momento em que decidi que meu corpo seria relicário para o corpo dele e o dele também seria para o meu.
Conversamos durante horas, enquanto ele bebia, sorvendo da garrafa, sem nenhuma tontura maior que o depusesse desenfreio pelo alto grau etílico.
No quarto, algo de uma alegria maior se instalara nos papéis de paredes, com borboletas e gravuras de ramos que me lembravam eras. No fundo de tanto estômago e dor e marginalidades divididas, quem teve fome fui eu e sendo o primeiro a comer com as mãos, feito um andrajo comum, sem os sapatos, apenas com as roupas de baixo, porque não havia pudor no poder das minhas palavras, soltas em bandos como pássaros sempre arrulhantes e piolhentos, eu que jamais me detinha, estava livre e igual ali. Me contou toda a sua estória, era de família quase rica, tinha quase os mesmos gostos que eu, os mesmos rostos que eu, semelhando doçura e bravura e loucura nas galopadas estórias de como conhecera o mundo e de porquê, naquela tarde, resolvera se lançar depois de ter sido agredido pelo pai, pela janela de sua própria casa. E perguntei, por que, não me contive:
__E por que não pela porta da frente, se você diz que foi expulso e não te impediriam?
__Porque a janela, na estória de todas as casas, mesmo mostrando belezas quando olhamos por ela, para mim sempre representou a chance da saída e porque para mim ela, marginal.
Achei tão lindo, tão intenso e sincero que sozinhos, juntos, sem nenhum comando maior que a nossa própria vontade e nossos paus que já estavam duros, rijos, latejantes, encantados pela presença plena um do outro, nos beijamos. E de como fora o sexo, não sei nem dizer, porque os meus buracos eram as entradas da casa dele e os dele eram os precipícios para desejos meus.
E me lançando de esquecimentos maiores que me depusessem qualquer fraqueza ou necessidade de jogo, ali, naquele dia inteiro, eu amei a uma pessoa que conheci para todo o sempre e que me conhecera para assim também. Gozamos e bebemos das águas mais jaculosas e profundas, comemos e mordemos das carnes mais sãs e moribundas, numa antropofagia moderna de pessoas antigas, ermas, irmãs, iguais, ancestralizadas pelo bravio córrego de um Deus fedorento e por isso mais belo e resfolegante, subversivo, submundo, feito de todo uma abertura sem dor, que poucos conhecem, para tempos depois por medo do abismo ou consciência do abismo, quem sabe, guardar! Temos medo de Deus? Temos medo da liberdade que ele representa e o inventamos qual um mito profícuo e nada jucundo, nada alegre, nada livre, para justificar nossos medos mais ínfimos de toda soltura.
O convenci para que voltasse para casa, que entrasse pela porta da frente, mesmo amando as janelas, por onde sempre, ele poderia sair para me encontrar, e o fez durante anos, durante toda a vida! E ainda, que decidisse lá, sozinho, o que era melhor fazer da sua estória, dos seus mistérios, das suas margens, das suas decisões. Quem sabe ali não decidimos? Exatamente por nos termos vistos, tão nus e quem sabe espelhados, n’alguma aturdida diferença. E mesmo estando geográfica e completamente distintas nossas futuras horas e direções, sempre fazíamos uma ponte para nos encontrar. Ele, fugindo pela janela, da sua nova casa, das suas muitas casas e eu, sempre querendo saltar de um bonde, numa quem sabe tarde alarida, para o encontrar. Refazendo a mesma sensação, sempre primeira do dia em que sangrando eu vi nos olhos de um moleque, o amor que jamais se abateria. E jamais se abateu.
O pornógrafo
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
La lune dans les oreilles

Tomado pela lua, pelas ruas, ele caminhou até a sua casa. Do outro lado das cidades, dos rios, dos veios e trilhos que cortavam ainda a cidade ladeada de matas, cascatas de flores recém orvalhadas, envernizadas pelo gozo fino da noite, apressava seus passos para chegar até a cama, n’onde pousaria seu corpo branco de cera alva e de carregadas inquietações altaneiras, poética juvenil de moços. Deitar seu corpo vestido de nu, do preto, negro, “noir”, dos sutis cuidados de dormir, sentir da ponta dos pés até os revés dos lóbulos das orelhas, vontade sublime e sazonal de ouvir, nos abismos dos ouvidos, a voz do outro, desconhecido.
Coroar e corar com licores bentos a boca e porta da boca do seu sexo, com venturas desiguais, ancestrais, divinais, reconhecidas, desconhecendo todo o curso e o percurso feito no feitio de até então, para apenas deixar que sofismadas ainda vontades, cobrissem de lençóis de gases, ventos subliminares, delicadíssimas teias, forrassem seu corpo, num coro silencioso e intrigante de palavras entre cobertas de pureza e do extrato do pólen colhido das flores, reunindo num só ramalhete nas mãos, o caule duro e teso do próprio pau como se também fosse o pau do outro, o deixando apenas latejar como as fluências de um cio mudo e ao mesmo tempo ruidoso.
Dei para ti, nesta noite de timbradas colorações de prata, o licor desses venenos esporrados com a ponta grossa do meu carinho. Ofertei com sabedoria calada de intuições que só um homem híbrido como eu, farto de ranhuras e cansado de tantos desenganos, a minha pureza já não mais alcançada, lançando hora de escambo e troca, permitindo de mim ser novamente criança.
Pude então perceber que falando da mesma língua, tanto ele quanto eu, desejávamos a mesma língua, a que exaspera com percursos molhados e pontiagudos, o contorno inteiriço das pernas, as cavernas da boca, dos buracos do corpo. Não nos faltava razão, pelo avesso, insistente ela nos procurava em busca de justificativas, solfejando nos nossos intervalos, porquês. E para ele eu desejava dizer que nem sempre existem porquês a serem perseguidos e procurados. Quando o pessegado pomo de nossas bochechas riem sozinhas, quando as nossas linhas mais fortes de expressão da face, apenas querem cerzir das tensões, novo tecido, novo motivo, é preciso deixar e apenas ser. E fomos, por horas intermináveis, que não queríamos fim daquela noite que nunca trespassava alvorada. Não era noite do sol, apenas que nos queimasse o colchão generoso, mas era a noite toda da lua para as penas e pernas entre abertas da tarefa de deixar que o fruto em definitivo se aleitasse, se deleitasse e depois esperasse o outro dia. Não para incertezas, não para abandonos, não para os séculos de insegurança, muito menos ou contrário, não era para “carpe diem”, era para abrir a estrada, descampar o caminho e deixar seguir, com o cumprimento de beijos profundos, sem fim...
O pornógrafo
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Le miroir que Alice a pas

Quando o sol nasceu e eu já estava deitado em minha cama, despojando tudo que me sobrepujava de pesos, ainda assim meu corpo cansado de idéias, pesarosos pomos de frutas que me enfastiavam, pesando sobremaneira o estômago aflito das emoções, pensei em levantar do jeito que estava, caminhar até o lavatório rosado e vomitar.
Vomitaria sem medo de esgoelar os anéis curtidos da garganta as águas todas, tolas, que de mim insistissem em permanecer, estar, como verbo apenas de passagem, que não liga, que não move, que não acrescenta, que não levanta vôos e nem alça lençóis para velejo. E o que vejo, é que este homem assim como eu sou, também tem suas usuras, suas tonturas, seus perdidos pontos de eixo, mas não costuma tanto falar, pelo menos no tom lagrimoso dos pastoris, dos cantores de outrora castrados. Não sou castrado! Nada me castra! Meus colhões são, sobretudo, mornos e quando esquenta a cabeça em conjunção maior com a lua, torrentes pêlos de aloirados vermelhos o queimam e fazem doer, a boa dor do gozo. Sempre gozo, mesmo que acometido de alguma dor.
Vi de mim, do mesmo alto desta cama, o corpo jogado, num abandono, que não pretendo classificar se bom ou mau, porque não sou filho das igrejas e muito menos dos ortodoxos conceitos desses julgamentos. Apenas me vi e me constatei.
A casa vazia, jamais abandonada, deixava nos entres dos espaços e cortinas o meu cheiro, assomado ao muitos cheiros dos tantos fundidos em mim, dos tantos perpetrados, penetrados, dos meus amores e paixões. Era um alarido só, correndo na balsa de ar e vento e silêncio, silêncio, silêncio... Um fragor de inocência correndo pela casa do pornógrafo, como uma criança de cabeça dourada, nua, peste, alegrada pelos arrulhados passarinhos piolhentos do quintal. Encantado com os diamantes de poeiras, qual tumbas de um imenso organeto de catedral e apenas uma janela quebrada, dando alegria ao chão melado de indecências do dia, que ainda deixava suas gosmas tímidas pelo chão da casa.
Era dia de vibrar, de sentir cada poro, de ouvir Maria Callas, “La mama morta” avivando com uivos de pomba, de coruja, de loba traiçoeira, brega, empertigada, de nobreza fedendo sudorípara debaixo dos panos de seda. Era dia de levantar da cama com as dobras do corpo nu, cheirando a tudo que os dias reuniram. Era dia de mansuetude e verbo galopante, peito suspirando, compasso, vão. E erguendo a imensa altura deste corpo meu, sussurrando a pele do meu saco, das minhas bolas protegidas pela pele dos pêlos bravios e longos do meu escroto, eu, que jamais deixaria fugir um só aviso de desejo, pude sentir que de dentro do meu corpo, às minhas pernas, as minhas coxas, o restante inteiro dos meus membros davam bom dia. E me tocando, caminhando de entre abertos dedos marginais pelo solo da casa empoeirada, procurei da sala o carpete mais surrado, mais cheio das marcas dos pés dos visitantes, para os arreganhar num arco inteiro magistral. Quem me visse debaixo, debalde, vacilante, esfregando, com as mãos também gigantes o corpo todo, o peito, o tecido das mãos, as costas das mãos, encontrando na agilidade dos dedos, ajuntados gravetos, que mais estreitados, toras, mastros imaginários que eu chuparia com sabor e sapiência, com pedidos de clemência enviados ao oco do dentro do meu próprio mundo, num segundo, quem me visse do alto de toda esta estrutura, com certeza me diria: __ Esporra, pornógrafo! Explode porra, plasma e leite dentro da minha boca! _ eu sei que eu deitado ali, me diria! E ri, num soslaio de vento guardado no interior da boca. E como uma fruta que se esmaga até o sulco do próprio pomo, fiz de mim nesta toda boa fissura. E se eu pudesse! Ah, seu pudesse! Adoraria nesta hora célebre, divina, ser como os admiráveis contorcionistas dos circos mais pobres, ricos na sua infinita e grandiosa lona furada, suscetível de verdadeiras estrelas e também chuvas, para beber das minhas próprias águas tempestivas. Mas apenas deixei que a minha imagem refletida por mim mesmo, tão generoso, apenas fosse minha, somente meu, o espelho dessa mente amanhecida, no chão do meu carpete empoeirado, até que a fruta perdesse seu contorno, sua pressão tremulada na tensão até gozar, gozar, gozar.
Chorei, sem nenhuma melancolia, ameaçando levar à boca os meus gostos, meus constatados sabores, mas apenas, os esfreguei com carinho de benção, no bico dos meus mamilos de macho duro, dobrado agora em inspiração para dentro agraciada, depois por metade do meu rosto. E calmo, sem pressa, como um felino, tão inteiro e desconstruído, como um menino, caminhei para a minha bacia de banhos.
O pornógrafo
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Les infirmières de Paris

Eu sou o almofadinha das meias sujas, das cuecas rasgadas, do corpo floral, de cheiros madrigais e de fustigadas e odoradas entradas de pêlos, com perfume ocre e intrigante de virilha. Eu sou o corpo e sou a trilha de incansáveis, perpétuos socorros. Nossa Mãe que nos proteja, da desgraça de nada sentir, porque da necessidade pressuposta de ser emparelhado em fila de bem sucedidos! Bem suceder, para mim, nestes dias, seria comer o teu cu, o teu corpo, teus buracos, tuas entranhas; primeiro, com a língua, depois com a massa de tora e de nervos do corpo do ventre baixo. Alteado em misericórdia e tontura, uma vontade tanta, imensa, como uma elegia, uma alegria de ouvir o teu gemer.
...
Desci correndo as escadarias do prédio de altíssimo azul, de elegantíssimos brocados, de esguia construção, mesmo sendo céu, ele, o prédio, não tinha a pretensão de chegar aos limbos e muito menos eu. Cheguei esbaforido feito um cavalo, suando os meus melhores ternos, querido e possuído de vontade em mim mesmo, de vagar as ruelas da cidade intransferível e bela de Paris, dos anos cinqüenta, ainda conservada em magenta, coloridos mortos, ancestrais trespassados tortos que por ali passaram e passavam assim como eu. E ao chegar ao chão de pequenos trilhos e contornos, estendi o braço forte para o trem e pedi passagem a alguns senhores fedorentos que estavam perturbando meu caminho, o meu dia e minha entrada. Em seguida, procurei com os olhos, com os ovos e os colhões, daquele enfileirado de cadeiras mal asseadas o melhor lugar para poder me assentar. Nenhum lugar, apenas um jovenzinho, enfermeiro todo vestido de branco, com um pequeno detalhe azul no brasão que lho compunha o uniforme de trabalho. Sua cara, de antipatia e sombrancenlhas torneadas de uma apuro, de um cuidado rubor que eu seria capaz de dizer de seu sonho, vestir do baú da mãe no quarto mais vazio da casa, enquanto todos dormiam, o mais lindo e torneado traje de festa e cantar, segurando com fervor e selvageria, o vidro peniano de perfume, que também lhe serviria de consolo, de prazer e desarvoro, nas horas em que se acocorava em cima da cama fofa, para dizer : “__Vinde a mim, mon garçon! Me enterra esta tora até os confins do intestino moço! Vinde a mim!”_ quase bíblico e sacrossanto, como um punhal devassando flanco carne a dentro, no buraco perfumado do seu anus de não mais menino. Adolescente? Talvez, pois que o trabalho em tudo o compunha.
Caminhei mais três filas e me depus corpo inteiro também azul meu terno como o prédio, sem pressa alguma de subir , encostando o meu corpo, metade das pernas e subida do tronco, no seu ombro esquerdo. Simulando, desequilíbrios pelos solavancos do trem, eu me deixava cair cada vez mais, à medida que o sentia pressionar, impressionado com a leitura de um livro de poemas de Santo Agostinho, rapidamente retirado da sua bolsa de couro escuro de fivela arrebentada. Eu odiava Santo Agostinho, mas não me interessava agora, que este saber me fosse interrupção, já que me era ponte sublime, vadia e subliminar para que eu fosse esfregando, pouco a pouco o meu pau no jovenzinho enfermeiro! Tão lindo, de sobrancelhas alteadas, sofismando vontades pelas leituras e sorrisos incapazes de rirem até o fim da boca, pela minha atitude de homem criado, malcriado, grisalho, embora senhor das idades e sempre juvenil.
A velha ao seu lado,se levantou dando lugar para que eu sentasse, mas fiquei de pé, permaneci ali, parado, teso, cheio de uma ereção bombeada do mais puro sangue, cavalo de mais puro sangue , eu sagitário, esperei, pacientemente em meu galope que ele, o menino, me ofertasse o lugar vago, e quem sabe, também os buracos do próprio corpo, os olhos virados para cima qual santo flechado tão sexy, São Sebastião! Ou da própria Santa contemporânea tão perto de nós pelos anos, Teresa de Lisieux e seu olhar pequenino de amplidão e doçura_ e assim o fez “__Senhor, pode assentar-se, o lugar está vago.” Mansidando meu corpo, escorregando lentamente o linho de casimira, das minhas calças de botões dourados, quase estourando pelo relevo dessas emoções de sangue, que só o homem pode compreender vivo em si mesmo, dentro dos próprios calções, das próprias canções veridianas, dissimuladas, me conduzi ainda de frente, oferecendo a fronte e todo o curso de minha altura, primeiramente os meus olhos e para depois, em fim, me depositar pesaroso e macho ao lado dele, moçinha.
Não apelei para nenhum truque. Não encostei a coxa nem abri com largura de covas as pernas, não suspirei alto, não tossi, não fiz de nada do que é fácil para o que se compreende sedução, à todo embaço e embaraço, desses caçadores vulgares de trepadas e gozadas furtivas . Também não me fiz príncipe.Não era príncipe; era o corpo sujo do suor do dia, dentro das roupas de carinho amassado pelos atropelos e esbarros das horas.Era o corpo nu quem dizia o que fazer, sem ao menos me datar, obrigar ou dizer com fome de nenhum grito, o que eu naturalmente deveria fazer. Porque eu deveria daquela hora, alguma coisa fazer. Isso estava certo. Era certo. Principalmente pelo pedido daqueles instantes, desde o tropel dos meus passos largos na escada; desde o burburinho falastrão dos homens e mulheres no trem que não era de carga, mas era pesado e cheio de invirtudes, tão visíveis perturbações passeando na cidade velha ou seguindo suas denominadas direções. Percebi no pescoço torcido, as ruas que não me diziam mais nada, as árvores próprias e copadas de floradas estações de primavera, que mesmo eu, virado em contrário, tinha o corpo prostrado em oferecimento nada sutil ao que dos olhos saltava das letras, o desinteresse pelas palavras chatas de Santo Agostinho, para o meu pau duro e flamejante, pulsante, elegante, a tora se movia enquanto o menino, suspirando, taquicardia e busca rápida de atitudes na sua bolsa, guardando mais que depressa sua encadernação velhaca do Santo, agora desinteressante, como também o era para mim. Mais do que nunca éramos comuns. Vontade em comum, desejo em comum, somente um dedo dobrado, não ainda em riste tocando o meu ombro, para me indagar:
__O senhor, me perdoe, mas poderia me dizer as horas?
__Não tenho as horas, tenho todo o tempo do mundo, tem muito tempo que não uso mais relógios! _ frase de efeito, mas nascida de umas rebarbas de poesia, ele precisa sorrir para mim.
E sorriu.
__Me desculpe! Eu perdi o meu, relógio! E agora vivo assim, sem saber ao certo a hora para onde vou!
__Isso, não me parece tão ruim! Eu pelo menos já não tenho tanto tempo para correr. Longe de mim dramatizar. É que sou mesmo um desocupado, não estando mais nas mãos do trabalho, ele é que está em minhas mãos, compreende?
__Creio que sim! Mas é que para mim, ainda não há tanto passeio.
__Meu passeio é meu trabalho, trabalha comigo hoje então?
__Acabei de chegar de um plantão de estudos, ainda não sou formado, mas quero ser médico. Por enquanto sou apenas um enfermeiro_ e vulgar_ o senhor tem algum ferimento que eu possa tratar?
__Tenho aqui, na altura do ventre um fato no mínimo interessante, que acontece comigo desde que tinha uns sete anos, mas que até hoje me assusta quando acontece, posto que sempre me parece a primeira vez.
__Tenha o senhor certeza de que eu o percebi.
__É que toda a vez que vejo um moço, lindo e frugal como você, ele cresce, se enche numa aceleração natural e como uma fruta de vez, amadurece, fica duro, lateja, sabe como é? Sente vontade de se meter corpo a dentro, como elemento ajuntado, somado ao corpo de figuras que precisam dele. E é quase incontrolável doutor!__Interrompido por ele.
__Ainda não sou doutor, apenas um enfermeiro!
__Mas que já me parece saber muito das coisas. Não é?
__Sei sim, que daqui há duas quadras de árvores seguintes irei saltar desse trem...
__E me levará consigo!
Se levantou dado de uma só vez, lerdeando seus passos, como um potro que esmaga com doçuras femininas e cuidados,a terra para não esmagar os pés dos fedorentos e ficou me esperando, na altura em que o bonde permitia saltar. Somente nessa hora me levanto, deixando que o azul dos meus contornos faça sombra e reverbere no calor do meu assento fundido ao da velha de rabo gigante; o que muito me aqueceu de doenças e corroborações. Saltei do trem uns dois tempos depois do seu pulo e caminhei sem dizer palavra, até que ele parasse enfiando a chave de bronze velho na fechadura da porta negra e imensa. Casa nobre, de fachada elegante, porta aberta, tapete vermelho, imenso e empoeirado, empregados ao corredor, pais sentados à mesa e nenhum incômodo da parte do enfermeirinho.
__Papa, Maman, este é o meu professor de inglês. O senhor professor deseja comer alguma coisa agora?
Sem nenhum susto, apenas mais ainda excitado respondo.
__Agora não, quem sabe daqui a pouco...
__Então vamos? Para o meu quarto, lá me concentro melhor. _Tinha o incrível dom de dissimular, de parecer natural como um ator inglês, sem nenhuma afetação ou tremor que o depusesse contrariedade ao verbo, me oferecia dos seus braços longilíneos a mão e o caminho, o endereço certo do seu corpo, do seu quarto. Era sem embaraço, sem perturbações maiores que o deflagrassem qualquer possibilidade de escôo ou fuga. Ele queria e eu também, para isso era preciso cumprir, fazer, armar e dar condições. Chegando ao quarto, depois de percorrer as escadas do fundo do corredor, uma porta entre aberta e cheia de livros sobre a cama. Quarto de menino, de educando e eu era o educador?
__Feche a porta, por favor! Mas não passe o trinco da chave!
__Como você quiser.
__Quero examinar o que te intriga, coloque para fora da calça para que eu possa ver.
__Se quiser posso retirar a calça toda. Acho que sem essas roupas pesadas você poderá ter melhor condição de saber do todo.
E me ajudando, primeiro arriou as minhas calças como se fosse dono do meu corpo ou cumprisse a função de pai que todos os médicos acabam sendo, sem pretender. Celebrando frieza e olhos fixos, deixou que ainda permanecesse a cueca, a mais velha, a mais suja, a mais amarelada. Por debaixo de tanta pompa, rasava as mãos compenetrado por baixo das minhas pernas, apalpando com força minha virilha, meus lados, meu escroto, minha bunda, quase num abraço, solene. Inventando nova medicina, abraçava o meu corpo discorrendo todo o braço até que a face ficasse suprimida , boca e narinas dilatando os cheiros e a salivada gosma de hálito quente, como o verniz de uma romã em viço, enquanto eu, apenas deixava que eu fosse o seu brinquedo, sua religião, sua ciência. Desatando os braços do amplexo da cintura, querendo nu todo o meu pau e sua estrutura de veias e perfumes rosáceos. Íngreme, abriu todo o anelado da boca de carne e primeiro o supôs , para somente depois fazer intenção de o engolir, e por fim o colocar, como diabrete faminto, como um bezerro desmamado no inteiriço da caverna do palato, os dentes cuidando para não bater e a língua tremulante das esperanças francesas. Chupando como animal desavisado dos adestramentos, era ele mais faminto que eu, oferecendo comida a um desavergonhado luxuoso de tecidos azuis, enquanto por baixo se guardava numa cueca suja, gozada ainda do corpo de outra puta, cantora, atriz, senhora de um cabaré, n’onde provavelmente ele nunca cantaria.
Dessa trindade de olores, vi quando no lânguido dos seus ombros e da dobradura do seu abdome, ele me pedia, já sem forças, domínio. Dominar seu corpo científico de menino quase doutor, para lançado em cima da cama, no meio dos livros de religião e anatomia, retirando da boca para colocar no buraco agora sim, premiado, até que ele gozasse o fenômeno dos seus leites, enquanto tinha dentro, não um vidro de perfume, até dizer trincando os dentes, desarrumando os cabelos dos penteados de passeio: “Vinde a mim, mon garçon! Vinde a mim!”
O pornógrafo
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Le temps de sauvages noirs

Os cães uivaram no mata e a porta da cozinha sempre aberta, junto com eles, seu grito de aviso que estava por chegar. As portas da minha casa sempre ficam abertas para os cães, os estimo, mas nunca os faço de “estimação”. Desta animosa feitura que os homens compõem como carinho e cuidado, para ter dentro de suas casas, no seu presumido cuidado e zelo; meus animais são libertos, livres como eu sou também, não me quero donos deles, nem muito menos donos de mim, numa fastidiosa e consumida relação de precárias côrtes e desejos cobrados, nunca cumpridos.
Os cães uivaram na mata que dava para a porta da cozinha, as vidraças quebradas, deixando rombos antigos de pedradas altaneiras de meninos, recém descobertos, punheteiros envergonhados de si, querendo e precisando demarcar suas fúrias e vontades molestadas em si mesmas, pelas culpas e segregadas ações, muito primeiramente atávicas, munidas de uma educação que não me compete aqui discutir_ não sou pedagogo! Não sou professor! Não sou o que os títulos enobrecem! E muito pior interessa a tarefa de ser pai desses meninos, que rompem a mata de volta à suas casas, cuspindo insistentemente nos caminhos e trilhas, nunca escondidas, mas cheia de mistérios bons, da salivada boca do gosto do meu pau, a desmesura que em poucas horas antecedidas, a eles próprios, era de todo prazer.
Os cães uivaram e ele gritou seu uivo junto com eles, posto que sua feitura fosse toda, de arrimados músculos não mais adolescentes, embora de púberes cortes, fosse todo o entalhe do seu corpo nu. Não me acometia nenhum susto, fui batizado nas igrejas mais pagãs e tortas pelos pais mais certos e convencidos de que, talvez, eu viesse a ser a riqueza da família. Enriqueci, todo amparado por coléricas profissões que não me convém aqui dizer, não me interessam também estes nomes, estes títulos, vá que eu possa ser um médico, um doutor, o cardiologista da sua família ou quem sabe um renomado figurão de encarregados postulados civis?! Deixa então que eu gargalhe, porque nenhuma dessas é a minha profissão, não sou nenhum novo rico, sou apenas pornógrafo, sou apenas a pena de mim mesmo e dos que me fogem com medo de depois da festa de pequeninas luzes e intenções.
Preciso tomar um banho e não paro por nada minhas arraigadas e arrogantes minúcias, para receber ninguém, por isso deixo sempre a porta aberta, correndo sim, eu sei, o larápio risco dos ladrões e malfeitores, que não me conhecem sequer a capacidade de ser maldito, de ser esperto ou medroso; do medo, só sei quando me deparo emocionalmente com ele, porque do físico nada mais me atormenta nos tempos infernais de hoje.
Disponho de certeza quando sinto o cheiro do presente corpo acalmando antes aos cães e enquanto dispo parte a parte das minhas roupas, imagino que ele está de quatro, porque tem o dom de estar, assim como eles, latindo ou rosnando, palavração sublime e endomoniada de uma invejável soltura e beleza, quando a espinha se distende numa curva e sinuosa estrada para dar vantagem as suas ancas, já por mim constatadas e me excito. Nessa hora sei quem vem. Quem entra a porta da cozinha abrindo primeiro sem rudeza nenhuma, sabendo já não mais me fazer surpresa alguma, para ganhar, descalço, pés de negro que se confundem com as rachaduras da terra, até chegar a porta do meu banheiro e me dizer:
__Senhor, posso entrar?
__Na banheira?_ e porque de mim nascera bom sorriso, a cabeça do meu pau em eriço, esquentando cada vez mais doçuras, levemente produzindo verniz de suntuosas doçuras dentro da água de banho_ Mas primeiro lave os pés, que você assim me faz achar que estamos num rio e quero você primeiro em condição igual a minha! Porque não me chegaras antes? Assim era corpo sujo, dado a corpo sujo, cheiro azedo, dado a corpo azedo, ao copo da boca, sem as frescuras do perfume de flor e cinza dos sabonetes lustrosos! Por quê?
Lavou, mas que rápido os pés na pia rosa do banheiro e eu ainda disse para que tomasse cuidado para não escorregar no chão que ficaria molhado, para que não batesse ou debatesse a cabeça no azulejo frio sem motivo que a ele fosse bom. E porque a água estava quente e nem um frio lá fora, para ele sem camisa, apenas com as calças do trabalho, quase estivador, não fez pressa em me perguntar quase servil, se preferia que ele próprio tirasse o restante da roupa ou se eu o preferia fazer, emprestando “levítica” doçura de ritos primaveris e sempre constantes na anunciação do que para ele já seria sexo.
__Deposita primeiro o pé, um de cada vez, para sentir que no fundo do rio já existe um corpo, felicitado._ Eu ri!_ Porque hoje ele também quer o corpo teu. Depois com o outro pé, busca na banheira uma parte que te dê segurança e escolhe o ângulo certo para assentar tuas ancas sobre esta parte que é toda tua nesta hora! Faz assim, de um jeito sacramentado, faz que eu ficarei feliz!
__Gosto de ver o senhor sorrindo, gosto! Gosto tanto, sabia?
__Não sabia não! Você nunca me disse, mas pode dizer isso enquanto senta, diz! Diz então que gosta de me ver sorrindo e me empresta a tua paz enquanto senta e gorjeia teus lamentos e cânticos profanos, santos do mato te trouxeram aqui eu sei! Demônios da mata de soslaio te fizeram lembrar de mim neste fim de tarde fria.
__Mas não estava frio lá fora senhor! Eu estava no chão com os cavalos, corri pelos campos, brinquei com as crianças e depois resolvi que queria vir aqui para brincar com o senhor, que sempre é bom de um todo para mim! Amo o senhor sabia?
__Acho que sim, porque também sinto amor quando vejo que você vem de bom grado a minha casa, que você não se prende em amarras e nem deixa de ser para as outras pessoas, para as tuas meninas, tuas promessas de casamento, sem jamais me esquecer! E me desculpe se pareço pretensioso!_Enrubesci de mentiras e verdades cruzadas dentro de mim, porque sou feito de prazer também igual, quando encontro alma justa, que me mereça.
__Não tem que ter dúvida disso não, não senhor!Não te dou motivos para isso, dou?
__Dá, para mim, somente agora, o que me quiseres dar e daí eu terei certeza! E não faz muito tempo nas paragens nessa minha elegia de pequenas e falsas aras, porque eu quero mesmo é que sentes todo no que você tanto gosta de sentir entrando em ti. Dá?
E feito dessa tonsura, dessa tontura, ele que era corajoso e decidido, vinha macio e franzido o cenho, a testa, o pescoço revirando o imenso pomo de Adão para trás, pelos músculos também muito bons de morder, do seu pescoço de negro moço, enquanto encaixava sem nenhum problema de transformar a pequena dor em prazer, em momentos esparsos e dançantes, como o lundu de tribos antigas, como o aluno se dava ao professor na esperança de jorrada sabedoria dentro de si. E meus cabelos eram tocados por suas mãos toscas, grossas, meigas de calos e de esporas, eram puxados meus cabelos e o centro do meu corpo, o meu ventre e meu peito para junto de si, para a sua boca de carne negra e gorda, lábio gordo, encharcado da pólvora da poeira dos cascos de um cavalo de tropel nada macio, resfolegado e febril. Vibrante e febril, trêmulo e jamais cansado de galopar e correr as matas viris do meu colo branco, minha virilha de algas flutuantes. E como era bom, eu preciso dizer! Como era bom me sentir amado sem pressa, sem mesclas de covardia ou medo, porque quem tem a boca cheia de fogo ou queima a língua ou cospe fogo! Ou teima á míngua ou faz o jogo certo de sua natureza, toda própria de obediências boas, sem pecado! Sem o peso cristão do pecado, ele era meu e eu era dele, sem nenhum medo ou sino que nos depusesse segredo ruim! Porque quando eu entrava nele, tenho certeza que os dois, dávamos bela, a presença e a certeza da companhia de Deus entre nossos orgasmos e mágoas da vida, trespassada, pela excelência grandiosa de não termos razão para fugir de nada e que àquela hora, era somente nossa e de Deus, espalhado na figura de mil outros deuses e cães e bichos todos outros espalhados no alarido misterioso da mata, da floresta de todo o mundo.
Ele, talvez tenha sido até hoje o único homem para quem eu tenha me dado em constância de tranqüilidades e nenhuma grande necessidade de placebos. O meu verbo era feito no silêncio e sem nenhuma escola de maestria, porque ele era todo bicho, era capaz de ouvir. Assim como os cães libertos soltos, do mato, que protegem e governam a mata e por generosidade, também os arredores de minha casa.
O pornógrafo
quarta-feira, 8 de junho de 2011
L'agneau blanc d'un millier de soleils!

Para L.
Descia sobre os seus olhos uma enorme fenda, uma desobediente e inescrupulosa luz de manhã. Da luz das manhãs os trigais serão sempre dourados e belos, resfolegando a teia doce da pele, uníssona e coberta apenas pelos trigais menores, se amontoando em doce conversação em volta da boca, do sorriso primeiro, as pratas de marfim tão branco! Quando se fecham, são protegidos por carne rosada de aurora, como o rubor das putas, os carmins das francesas e jovens travestidas de santas, pagãs, os lábios são de suntuosa doçura, podendo esconder entre as lápides dos dentes afiados, parecendo de leite, o pão e o leite que fustiga a palavra que se esconde e se revela e se mastiga para depois cuspir quase nunca de uma só vez! Ainda sobre o leite, a mão e os dedos longos eu logo pude sentir na hora da primeira saudação! Os braços, grandes, a generosidade sem tamanho, no minuto do abraço. Anacrônico, nem pude contar seu tempo! Posto que fosse certo em toda a minha boa bruxaria, que o tempo era enguia, revirando-se jocosa por dentro em antepasto de reconhecimento.
O cordeiro, de cordial, de animal comido e preparado com ervas em festas de fartos ciganos como eu, nunca passaria despercebido à minha fome! Nunca!Em jamais tempo algum, uma elevada estrutura de arrimo e cuidado, sofismando resguardos, passeando nudez, por debaixo e por entre os pêlos, jamais! Eu disse, jamais! Deixaria meu zelo descuidado dos minutos.
Era simpatia, trespassada de algum desarvorado medo, o meu segredo estendendo côrte e levantando as calças como a floração nada inocente dos trigais, dos milharais pontudos. Da polegada do meu sexo, bombeando sangue e completando centímetros de beleza, uma doce tora estendida para colocada bandeira de anunciação. E eu nem me sentiria vulgar, dizendo assim, deste modo, sabendo que meu corpo é santuário e que o dele era mais bento que os ungüentos cuspidos pela língua, na hora intencionada de adentrar. Eu sou erótico, mas não sou fácil! Não são de fácil compreensão os meus escritos, os meus arroubos e os meus gritos, minha mudança de voz e prosódia quando a língua se entorta em chegada dos vozerios de cima, quando a conversação invade o meu corpo num “espanhol” proscrito em minha mente, eu não sou fácil! Eu não sou fácil nem para mim, mesmo! Eu não sou fácil!
E se dizer ao cordeiro é receber indiferença redobrada em retorno, o caminho tortuoso que ele faz com relativo “prazer” entre os prados e montanhas para ser encontrado pelo pastor! Eu faço o caminho, eu grito nas encostas e matas e estradas e nos eitos de grama, já acocorada pela noite, eu grito! Não tenho por que, postergar a afirmação do que para mim fora beleza. Do que me fora fome e desejo. Mas faço tudo isso, com a consciência redargüida de toda a sua natureza, de toda a sua possibilidade de “inação”, de silêncio como esmero e cuidado. Mas de mim não precisa cuidar! Pelo menos, desse modo!
O cordeiro fala, fala doce, fala à voz que seu corpo anunciaria antes mesmo de vocalizar, porque nele quase tudo é harmônico, até a sua empáfia, a sua esnobe e ressentida forma de chamar atenção, distendendo seus músculos e todo a estrutura do espírito em silêncio de bolha, meticuloso, seletivo, virado de costas ele quer mesmo é estar de frente porque odeia o que é fácil, mas também odeia a rejeição da dificuldade! E isso tudo é lindo e me excita pelo meu respeito e sagração constante a natureza. Adoro o corpo frêmito dos animais nervosos! E os cordeiros não são menos selvagens quando se sentem enraivados.
Certa feita, no meio de uma festa, depois de “quase” me negar os olhos, passeando por todos os outros animais, o cordeiro se deitou no chão e fez questão de esticar o corpo todo para que o seu membro fosse visto nervoso, ereto, prometido para logo em seguida quem sabe, muito provavelmente ser negado.
Mas o que eu, um homem sujo e estampado de luxúrias e torpores na pele dos olhos posso dizer? Que eu, pequeno estorvo, medalhão de cafonices e ouros turvos posso dizer, senão que a minha safadeza é sim, a minha cara, mas que a doçura também lambuzaria de mel, nos mais ciprestes agridoces a comida toda do seu corpo, todo branco, todo manto de lençóis delicadamente arrumados na hora da visita, da minha visita ao seu quarto que ainda não aconteceu?
Pois, bem, abrasada a festa tinha também fogueiras e festejos maiores, mas eu me alimentei de pão sírio e de águas sevadas, as que semelhavam os suores das tuas axilas em trabalho, dos teus sabores por mim supostos, numa adocicada e severa condição de amargor, porque tu és todo lindo e dos teus olhos, qualquer palavra seria bendita, se tu sorrisses bem, mas bem no canto da boca! Não precisando, por suntuosa jogatina de naturais posições, que tu revelasses o branco tolo dos teus dentes semelhando ainda os de criança. E tua criança, seria deitada, provavelmente, primeiro sem nenhum tom maior de afetação no ruidoso rosnado do meu colo, do meu solo e quem sabe depois minhas ereções abusadas, desprendidamente despreocupadas do teu julgamento, depois que deposta a primeira entrega. Eu te mostraria como se faz para crescer mesmo sendo linda e louvada a infância, de redescobertas. Assim, imenso, do teu tamanho de homem, solfejando quase tristonho, porque triste e admitido, nunca! O cordeiro é vaidoso, eu tosaria peça a peça de tuas roupagens tão belas de vestir e fazer notória tua beleza, tua pele, teus olhos ermos de uma secreta e contraditória nudez branca e não sei porque latina_ porque também há cordeiros na Espanha, na Argentina, nos Andes, nos madrigais de toda América latina_ que para ser homem nos braços de outro homem, basta apenas se permitir depois de “velho”, doutorado e feito, pela vida, pelas rasuras do tempo, apenas ser niño, menino, ciranda, criança e te faria gozar, com amor, do leite que deleite já deveras há em teus colhões! Porque todo cordeiro é santo, como também é manto de carnes avermelhadas nas presas da boca faminta dos felinos, das raposas, dos contentes sanguinários ciganos tristes como eu.
Mas teu silêncio é longo e “indiferente” como eu já pressupunha, tua memória é peixe como eu já eu me depunha em confissão de sofrimento e negação a esta carne ilesa e difícil dos anzóis, tua certeza é incerta, posto que teu natural realejo esteja nessas danças mudas, mas mesmo amando o silêncio, eu sou amante dos gritos, das caras feias e expressivas, das dores e doces sofreguidões dos penetrados, dos perpetrados na luxúria dos buracos rosados, negros, nada secretos; mas teu corpo é etéreo e batizado é redimido e treinado para a negação. É hóstia jamais sofrida, que minha língua não pode comer. Esta ilusão não me é permitida, vulpe e adorador das carnes vermelhas, fico de longe contente apenas nas lembranças do teu sangue no rosto, como rubor.
Se eu te pretendi?Mas é claro que sim e talvez, eu disse talvez! Sem a pretensão de horas ou permanências, sem prisões ou decências, sem torturas ou imposições! Eu sou indecente, despudorado, sou de palavras febris e lagrimado, sou, redundante, desavisado, sou passional demais para você! Mas longe de mim sentir auto-piedade! Isto não é nem de longe uma carta de amor, para alguém que de distante, fugiu de medo? por não corresponder amor sequer experimentado, por mim, nem exigido. Eu sou potente e audacioso demais para depois da festa me enlear de auto-comiseração! Eu te respeito demais para sentir pena de mim! Eu quero gargalhar teu sorriso e te dizer apenas, que sem penas, nem houve tempo para expectativas ou lamentações e que o meu pau sempre suba, rendendo glórias ao teu corpo santo quando ele passar, quantas vezes ele quiser passar, passear, se perder ou sangrar pelas minhas trilhas de altas e ingrimes vertigens montanhosas! Para simplificar, toda vez que eu sentir tudo isso, te facilitarei, bebendo de ti um copo, um pouco, um corpo inteiro d’água, porque água na minha boca é vinho e o meu carinho bruto, nos altos frontispícios do arrimo de calças, para isto sou fácil! tu vais avistar! Uma ereção e todo o leite dessa tora “maldita”, rendida até os meus pés mais bizantinos e sacro-santos, esta baba leitosa e benta em homenagem desvelada somente a ti! Estamos acertados, cordeiro?... Agora, corre pelos prados que a ti impuserem fome, que te derem nome. Tua imagem, jamais, será esquecida! Por ti eu sempre hei de gozar!
O pornógrafo
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Parce qu'elle m'aime à l'os

...
Dei-te do meu cheiro fumarento às tuas entranhas, todos meus desejos, minhas rusgas, minhas rugas, minhas mãos, do meu sexo invertebrado quando contorcia qual serpente em nossa cama de silêncios, bravios, tão bravios córregos de um olhar tão pairado. Fascinando-se no ar, as bravuras desses braços que tocando em própria misericórdia, no clamor, no pedido, no eriço dos nossos pêlos mais íntimos, o som penetrado dos regatos, resgato a essência e o azedume olorado, que consome...
Dei-te as minhas mãos, enquanto tocando o próprio corpo, o meu corpo que era teu, tua casa, teu santuário, teu eito simples sem descampados, de doces pomos e frutos, pedia a cabeça dessa tora, desse tronco que espremesse por natureza, na despreocupada e aturdida repetição, grunhidos cânticos ancestrais, que por milhares de anos, homens iguais a nós dois, chorariam pela boca dessa fenda,dessa luta, desse pomo, o azeviche desse estrondo, numa cascata de leite, o deleite do nosso gozo até o fim, sem sono. Porque ele me ama até os ossos!
O pornógrafo
domingo, 8 de maio de 2011
La demande des trous ou des pédérastes Dos avenir

__O que você aprendeu não é sexo, é estupidez! Não começa nessas profundezas, nessas tarântulas sem veneno que são as tuas mãos! Isso, não é sexo, é estupidez, pura estupidez e necessidade sem noção, sem bom senso, sem tamanho apenas para tentar se definir!
Dito isto e me levantei de uma só vez da cama. Fiz silencio acendendo uma vela azul, que chegara com um móvel velho de decoração, desde 1930,35 e eu nunca a havia acendido, porque para mim não existia razão, não existia fé, nem suplício que desgovernasse a sagração da dobra dos meus joelhos, muitas vezes estourados, nos carpetes e chãos ásperos, duros, sujos, carpetes sem doçuras do felpudo, contrabandeados, baratos, de lugares mais baratos ainda_ Você pode imaginar de que lugares eu estou falando! Ah pode! Quero gargalhar, posso?...
Pois então, acendi a vela azul diante de um Cristo albino, menos estúpido e nu, todo vestido de um branco, sem “couleur” alguma, para apenas solapar naquela criatura tão “zinha”, niña, alguma espécie de silêncio, de introspectiva reflexão. E, para não confundi-lo, porque não me bastaria apenas falar de coisas simples e claras, retirei detrás do imenso Buda, que resguardava as fotos de “pinups” e putas de minha mãe, uma garrafa carregada de um velho whisky_ mais velho que a minha avó já morta.
__Bebe! Mas não bebe tudo porque no fim de nossa conversa, sempre haverá o risco de querermos mais um gole!
Só então ele me disse:
__Nós vamos conversar?
__Nós vamos começar de novo e sem nenhuma pressa e você vai me dizer se quer que seja assim, tão desprezível, sem nenhum sentir. Então bebe este malte rasgado! Esgarçando-se a si e a própria alma e a própria garganta em pedaços, mamando num só regalo, para depois, me dizer como se fora no começo, qual é o seu nome. Qual é mesmo o seu nome?
__Patrick...
E ficou quieto, vendo-se que não tinha costume de tanto amargor e azedume na própria boca.
__Patrick?_apenas fitei mais fundo_ E com um nome tão lindo, tão feminino, tão mocinha desses! Inventou na sua cabeça de que porque eu tenha aberto ás minhas portas de casa para ti, abriria também assim, de uma só vez também, aos meus buracos, minha garganta, minha goela, meus orifícios, só porque precisa provar a si mesmo e à mãe e ao pai, super intendente da marinha, que és macho?! E que não te virarás em pederasta num amanhã sombrio?!... E o que tu sabes da vida rapaz? O quê? Sua bichinha medrosa! Atormentada e aturdida pelo sucesso, pelo bem suceder! E em algum momento, enquanto tomávamos laranjada no café “ La Douce” eu te disse ou deixei brecha do-quê eu especificamente quereria de ti? Ahm?! Diga-me!_Nem suspirei._ Olha menino, se eu fosse uma mulher, sabia que eu tinha te matado esta noite? Poderia ter assassinado você com uma facada no meio do peito ou te serviria outro copo de laranjada, com uma fatia bem gorda de torta de ricota com cobertura de limão e soda cáustica, para você morrer bem devagar! Ou talvez te desse um prato de cereais, já que você tem esta cara indecisa de criança, com mil bolinhas de chumbinho no meio, misturados no meio do leite, para que você implodisse e saísse gritando só de calçolas, no meio da avenida principal, pra que todo mundo soubesse que tu havias comido a uma puta, mas que ela havia comido você de uma só vez, justamente por tratá-la feito a um buraco e nada mais! Porque nem aos buracos eu duvido que tu tenhas coragem de tratar tão mal assim!
E retrucou nervoso.
__Mas eu o tratei tão mal assim?_ eu não quis responder_ E tem algo de venenoso aqui nessa bebida?
Aí sim, explodi do silêncio e quis dizer:
__Primeiro recapitule, eu disse que “se eu fosse mulher”e eu sou homem, olhe bem, você viu e sentiu o meu pau e parece que gostou tanto dele que está nervoso agora, trêmulo, porque ele representa de tal modo, sim! A tua morte e quem sabe o teu renascimento e depois, a tua sorte é que não sou destas fúrias, as que não recrimino, quando são delegadas à maravilha da diferença e você entendeu não é, que estou falando das putas, das meretrizes que com quem certeza você nunca conseguiu sequer uma ereção vacilante, bem contrária a latejante como esta a que te domina agora! Responda!
Era para que ele sentisse bem a noção do que era, que eu queria ser cruel aquela noite, mas eu sou cruel, a vida é cruel, e crueldade não é pecado! Aviso logo aos puritanos que me escutam nesta hora falando de soslaio para que eu não possa ouvir, eu ouço tudo! Tenho ouvido muito bom!
Era preciso fazer silêncio e eu fiz silêncio de algumas poucas horas, enquanto a vela queimava azul, boreal, esperando atitude dele.
__Peço perdão então! Mas não era esta intenção... e o senhor não está errado!
__Senhor não, sou igual, temos quase a mesma idade, treze anos de diferença e quem sabe, você será um pai de família infeliz e remoçado, assim, jovem, como eu também sou! Mas tenho a pele boa, não gosto do sol em excesso e muito menos de torturas emocionais como as tuas, como as que te consomem! Você é bonito, muito bonito e com certeza não conhece carinho, que não seja apenas pelos teus cães, pelas tuas colchas de retalho feitas pela sua avó, por sua empregada velha que lhe leva o leite pela manhazinha à cama, mas é velha demais para que você pudesse pensar em meter! Ela seria com certeza a sua mãe, a que você não teve, e que está mais ocupada em destrinchar colares de pérolas, colhidas do útero de ostras ancestrais, arrancadas por contrabandistas, piratas insolentes e solenes aos quais, tu, reverencias nas tuas desocupadas penetrações de poucos dedos ao próprio cu, nos banheiros dos empregados, perto do celeiro!
__você é doutor psiquiatra?
__Deus me livre desses monstros! Eu não sou nada disso! Sou apenas um sonhador, um menos lamentoso que tu, tão jovem e já tão atormentado. E não estou aqui para te ferir, porque se tivesse, com certeza, tu já terias corrido daqui, creias! Tenha certeza! ... Por quê? Acertei alguma coisa?
Ele revirou os olhos como as atrizes da cinemateca alemã.
__Sim, o senhor, desculpe, você disse tudo o que acontece comigo!
Eu ri, não gargalhei porque seria crueldade demais e eu respeitava a vela que queimava, nem um terço ainda, da minha baba desmantelada e quente de devoção, exercício e parafina.
__É, mas foi apenas sorte! Minha mãe me dizia que eu era sensitivo, cigano, mas na verdade eu não passo de um bom observador e você, meu caro cordeiro assustado, você infelizmente ainda é muito previsível! Mas não se atormente com isso! Tente esquecer tudo isso que eu te disse e me diga, você quer começar tudo de novo? Quer recomeçar?... Ah! mais primeiro quero te fazer uma perguntar salutar, somente a título de proteção e prevenção de problemas para nós dois no futuro, futuro, digo de daqui há pouco!
E porque não era de todo “burrinho”, eu jamais perderia o meu tempo senão houvesse lama para lírio naquela alma, algo de orgulho lho ergueu de leve o queixo em desafio (fazendo questão de organizar bem a frase, incisivo).
__Pode fazer! Faça-a, por favor!
__Você sabe que é um homem? E que está na cama de outro homem? E que esse homem, provavelmente não é o seu pai?
Ele esnobou e sorriu, porque já estava tranqüilo das possibilidades de que eu não fosse um psiquiatra.
Sim!_e tornou a rir, agora ele gargalhava de nervoso._ Sabia, que às vezes você me parece muito engraçado?...
E eu senti uma leve vontade de mandá-lo tomar no cú, mas relevei constante para não estragar meu catecismo.
__Melhor! Melhor assim! Então primeiro ria comigo e dê mais um trago de whisk sem nenhuma piedade. E depois, ligue para a sua mãe e minta para ela, diga que você vai dormir na casa de um de um “amigo” do instituto escolar e amanhã, não pode passar de amanhã! durma de verdade, na casa de um amigo seu da escola e peça para ele te foder com carinho a noite inteira! Está certo?.... Agora olhe bem dentro dos meus olhos, me chame pelo nome bem devagar, quase soletradamente, me pegue pelas mãos e me peça um beijo! Eu te darei o beijo e você... me dará somente aquilo que quiser. E riremos sem pressa de nada, depois comeremos biscoitos com chocolate quente, eu te prometo colocar boas doses de conhaque na tua xícara e quando amanhecer, você tome o seu rumo e só volte aqui, depois de três anos, depois que tiver descoberto por inteiro, o que quer ser e o que quer que seja tu ainda serás sempre um homem. Você poderá até se travestir, me aparecer à porta vestido como a tua mãe, mas volte sabendo que para ser tudo, até mesmo violento, rústico, sagaz, poderoso, qualquer coisa! é preciso ser carinho. Combinados?
O menino estava seduzido, primeiro virou para o telefone pousado ao lado do criado mudo, fez exatamente e sem dor o que eu o havia pedido e depois como num ritual, passo a passo apenas me interrompendo para pedir que não apagasse a vela, porque era “bom olhar para o Cristo albino” e azul, era a sua cor predileta.
O pornógrafo
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